10 de dezembro de 2012 - 06:06

Criatividade e Autonomia em Sala de Aula

A primeira grande invenção do ser humano, sem dúvida, foi a roda. Observemos que, mais do que um instrumento que se tornou roldana, pneu, catraca, etc., essa invenção revelou ao homem que o universo está em constante movimento e que se ele se harmonizar com tal movimen­to, este flui mais naturalmente, num desenvolvimento mais rápido.

Em nossa volta, encontramos, diariamente, o resultado de criações incessantes dos seres humanos. Quando uma pessoa, por exemplo, precisa encontrar uma forma de resolver um problema prático do seu trabalho ou da sua sobrevivência, pensa, procura, experimenta e final­mente consegue uma solução. Solução esta que, muitas vezes, já exis­tia em algum outro lugar, mas era desconhecida. A resposta daquela pessoa foi uma criação, uma descoberta, algo novo que inventou: eis o resultado do seu poder criativo. Falta criatividade a professores para garantir mais aprendizagem aos alunos?

Em todo grupo há pessoas criativas. Cada um precisa ter autono­mia e liberdade para criar. Cada ser humano precisa ter autonomia para sugerir novas ações, uma nova maneira de fazer. Alguns profis­sionais têm autonomia, embora autonomia limitada é bem verdade. A liberdade para criar, muitas vezes, tem que estar dentro de normas pré-estabelecidas. Em raras atividades profissionais, é possível modificar essas normas que, às vezes, impedem a criatividade.

Um sonho importante para o exercício da atividade, de qualquer profissional, é ter autonomia no seu trabalho. Ter autonomia para criar é uma conquista fundamental para qualquer ser humano. O professor é um entre poucos profissionais que pode comemorar essa conquista. O professor tem plena liberdade para criar na sala de aula. O professor é livre para inventar e experimentar, às vezes e de tal modo, que nem assegura a aprendizagem de seus alunos.

O professor não tem independência ou autonomia ilimitada. Ne­nhum profissional tem, nem mesmo o profissional liberal. Mas, o professor tem uma liberdade extraordinária. E ao adentrar na sala de aula, pode criar a vontade, inventar, experimentar, sonhar, delirar. Tem diante de si crianças e adolescentes sonhadores e famintos para apren­der, abertos para o novo, para a criação, para a experimentação. Tudo isso não significa deixar de planejar e trabalhar apenas de improviso. Por que alguns professores, principalmente de escolas públicas, afir­mam não ter autonomia em seu trabalho?

Há professores criativos e fecundos em imaginação, que descobrem como o aluno aprende. Agem de acordo com a necessidade de cada aluno. Professores que descobriram como devem proceder para que os alunos aprendam. Outros professores pelo fato dos alunos não apren­derem, apresentam desculpas, inventam pretextos e acham culpados.

O professor, ao fechar a porta da sala de aula, está com seus alunos em um ambiente “inviolável e sagrado”. Onde pode fazer o que achar que é necessário para que o aluno aprenda. E assim, cabe a ele a respon­sabilidade pela aprendizagem do aluno. Quando esta não acontece, os “outros” não devem ser responsabilizados.

Ao final de cada ação, evento, aula, dia, semana, cada professor precisa olhar para dentro de si mesmo e analisar o grau de compro­metimento com os alunos, pais e escola. Rever sua prática, para poder construir com alegria e esperança o futuro daqueles que o destino co­locou em suas mãos. Mudar hábitos e crenças para acolher crianças e adolescentes que lhes devotam carinho, respeito e amor, demonstrados de forma explícita por uns, e implícita, por outros.

Houve um tempo em que o professor era um profissional admirado e respeitado, quando o conhecimento era um valor de grande estima so­cial e um bem escasso, porque poucas pessoas podiam completar seus estudos. Esse respeito continua, mas em outra dimensão. A escola como um todo, bem como a sociedade em seus diferentes segmentos, tem uma imagem do professor representada quase sempre, de forma positiva.

Um momento mágico para o professor é o primeiro encontro do ano com os alunos. Estes alimentam expectativas em relação ao pro­fessor antes do inicio do ano letivo. Depois das primeiras aulas, trans­formam as expectativas em julgamento, se a sentença for favorável, ganham o professor e o aluno, abrem-se os caminhos para uma apren­dizagem mais efetiva. Se a sentença for negativa, fecham-se quase todas as portas para a realização de um contrato didático e uma convivência prazerosa entre professor e aluno. Se o trabalho do professor for de­saprovado, perderá autonomia, provocando desestimulo e desapreço com o seu trabalho.

O que acontece quando o trabalho de um profissional é rejeitado? E se esse profissional for o professor? Nesse caso, o trabalho dele pode ser desaprovado, perdendo, assim, a autonomia no exercício da sua ati­vidade. Na docência, quando isso acontece, provoca uma desafeição ao trabalho, perdem o professor e o aluno, há uma quebra na possibilida­de de uma aprendizagem profícua.

O professor criativo é um eterno pesquisador, dá menos importân­cia às notas e mais atenção à aprendizagem; não trabalha individual­mente na escola, valoriza cada ação do aluno; abre espaço para as dis­cussões colocadas pelos alunos. No professor criativo o aluno deposita grandes esperanças e tem muitas alegrias com a sua presença.

Não se ensina ninguém a ser criativo, dizem os especialistas, mas eles concordam que criatividade é uma coisa que se aprende. A criatividade não é uma condição das pessoas inteligentes, e sim, um atributo que dá à inteligência uma versatilidade maior. Pensar uma educação criativa, uma educação que nos faça pensantes, e não meros repetidores de fór­mulas tem sido uma alternativa individual de pensadores e educadores.

A criatividade não surge e se estabelece de forma definida e comple­ta, mas sim, gradativamente, em cada um de nós professores. Aumenta na proporção exata da nossa sensibilidade. Sensibilidade, nesse caso, é a capacidade de nos surpreendermos ou de nos maravilharmos com as coisas mais simples, de percebermos que também a dor ou a angústia sofrida na atividade diária são fontes de inspiração, para ver os fatos sem pré-julgamentos, sem pré-conceitos, mas ao contrário, senti-los com todo o nosso ser.

Ao dispor de autonomia quase ilimitada, para colocar em prática uma educação criativa é necessário que o professor, antes de tudo, se torne criativo, conhecendo, interiormente, os processos de criação, para que possa saber quando a criança está aprendendo e quando ela deixou de aprender.

Os alunos são apaixonados pelos professores criativos, pelos que demonstram autonomia no dia-dia em sala de aula. É impressionante como eles percebem essas características no professor.

pedro.lucio

Pedro Lúcio

Coluna

Foi dirigente sindical e Secretário de Educação de Campina Grande. É Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências e professor da Universidade Estadual da Paraíba - UEPB.

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