7 de dezembro de 2012 - 03:35

Um beijo para Jackson

Certa vez, Jackson do Pandeiro convidou a comadre Sebastiana pra dançar um xaxado na Paraíba.

Noutra feita, esse mesmo Jackson se espantou com o excesso de tantos josés, e alargou esse espanto quando disse ao Brasil, quando cantou, sobre o quanto tem Zé nessa Paraíba.

Da Paraíba disse estas e outras. Ritmos e letras que se tornaram verdadeiros clássicos, e que fizeram de Jackson do Pandeiro um dos grandes ícones da música brasileira.
Acho que, por causa disso, nesta semana ele recebeu um beijo. Um beijo… inusitado!
O beijo dado em Jackson do Pandeiro não foi na sua pele, mas na pedra. Ali na Praça Rio Branco, centro de João Pessoa, recentemente foi construído um monumento ao nosso Rei do Ritmo. Na entrada da praça, frente à Visconde de Pelotas, Jackson ganhou a sua estátua. Ao deparar-me com ela, sábado passado, vi o gesto mais bonito de admiração a um artista.
Enquanto contemplava o novo monumento, surpreendeu-me a parada de um popular que trafegava nas imediações. Era um senhor idoso, na casa dos sessenta anos. Ele parou, examinou a obra rapidamente e não teve dúvidas: aproximou-se da estátua e tacou um beijo na bochecha de bronze, a bochecha de Jackson do Pandeiro.
Fiquei a me perguntar por que aquele homem simples, de forma tão inesperada, aplicava um carinho dessa dimensão em plena via pública. Sendo, inclusive, observado, tornando-se atração de risos e chacotas. Mas diante dos transeuntes, ele mesmo se antecipou a responder, como se sentisse uma incontrolável vontade de se justificar:
– Beijei porque ele mereceu… E porque esse cara foi um artista tampa!
Acho que poucos artistas, neste mundo, conseguem receber esse honroso título de “tampa”. E dos poucos, talvez sejam raros os que recebem um beijo muitos anos depois de sua morte. Jackson, é claro, não estava ali em carne e osso, mas aquele não foi um beijo na pedra e sim no mito. E os que riram com o gesto, ou que fizeram chacotas, dificilmente conseguirão entender como aquele beijo foi tão verdadeiro, saído do coração, provavelmente a expressão anônima de quem sentiu, em algum momento ou sempre, a grandeza de uma arte eficaz e legítima.
Soube depois que, no calçadão de Copacabana, dezenas de pessoas beijam, diariamente, as estátuas de Drummond e de Dorival Caymmi. Esse é um mistério da arte, da grande arte, que merece estudo e compreensão. O que um artista é capaz de causar no sentimento de algumas almas humanas, a ponto de receberem mimos e manifestações, acenos e gestos póstumos, ou beijos como aquele na pele da pedra fria.
tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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