24 de novembro de 2012 - 09:25

Conflito em Gaza expõe declínio de Assad no Oriente Médio

O presidente sírio, Bashar Assad, geralmente está entre os primeiros a protestar com retórica acalorada durante uma investida israelense contra a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas.

Descrevendo-se como o único genuíno defensor árabe dos palestinos –e tachando seus pares de ambivalentes, quando não de cúmplices de Israel–, o líder sírio em muitos momentos já explorou a causa árabe para respaldar sua posição doméstica.

Nos últimos dias, contudo, quando Israel lançou uma ofensiva contra o Hamas, a voz da Síria tem sido baixa –e poucos dariam ouvidos a ela, de qualquer maneira. Não apenas Assad é acusado de travar uma guerra contra sua própria população, em sua luta pela sobrevivência, como perdeu sua influência sobre os palestinos.

Assad não é mais o patrono do Hamas, organização islâmica sunita que transferiu sua sede para fora de Damasco após o levante sírio.

Khaled Meshaal, o líder do Hamas, apoiou abertamente seus irmãos sunitas na batalha deles contra o regime de Assad, dominado pela minoria alauíta. A atitude de Meshaal –e a cooperação crescente do Hamas com o Egito, que mediou o cessar-fogo com Israel– também colocaram o Hamas em desacordo com o Irã, que, segundo Israel, tem sido um de seus maiores financistas e fornecedores de armas.

Ontem, numa aparente tentativa de Damasco de continuar relevante, a mídia síria anunciou que um grupo militante baseado no país, a Frente Popular para a Libertação da Palestina, tinha reivindicado a autoria da explosão de um ônibus em Tel Aviv. Mas o papel enfraquecido da Síria reflete os realinhamentos graduais em curso na política do Oriente Médio após os levantes árabes: o chamado eixo de resistência –liderado pelo Irã e incluindo a Síria, o Hezbollah, libanês, e o Hamas– foi enfraquecido, ao mesmo tempo em que ressurgiu um centro de poder egípcio mais tradicional, em aliança com outros Estados sunitas. Isso pode afetar a evolução do Hamas e suas relações com Israel.

O grupo militante xiita Hezbollah está parecendo cada vez mais isolado, na medida em que se manteve ao lado de Assad, assistindo a seu aliado palestino aproximar-se do campo árabe sunita.

Sayyed Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, insiste que o Irã, a Síria e o Hezbollah não abandonaram o Hamas. Mas, num aparente esforço para pressionar o Cairo, ele pediu que a fronteira entre Egito e a Faixa de Gaza seja aberta e que foguetes e armas sejam enviadas aos militantes. “O verdadeiro arabismo e o islã genuíno consistem em países árabes enviarem armas a Gaza”, ele declarou num discurso.

Michael Williams, membro visitante do instituto de estudos londrino Chatham House e antigo diplomata sênior da ONU na região, disse: “O eixo de resistência sofreu uma ruptura decisiva. O Hamas saiu e a Síria está de saída. Isso deixa uma aliança xiita do Irã e o Hezbollah.”

O Hamas, organização sunita e ramificação da Irmandade Muçulmana, sempre foi um parceiro pouco à vontade no eixo de resistência, sendo suas relações com o Irã, em especial, movidas pela necessidade e por uma rejeição comum ao processo de paz no Oriente Médio.

Sob o governo do presidente deposto Hosni Mubarak, o Egito, ao lado da Jordânia e dos Estados do Golfo, era defensor do pró-ocidental Mahmoud Abbas e de sua Autoridade Palestina na Cisjordânia, que está comprometida com o processo de paz.

Mas o mundo árabe está voltando a acolher o Hamas, fato ilustrado por uma delegação que visitou Gaza na terça-feira para demonstrar solidariedade e, o mais significativo, pelo papel central exercido pelo Cairo –governado pelo presidente islâmico Mohamed Mursi– na negociação do cessar-fogo.

“Ninguém pode ignorar as transformações no Oriente Médio ou o deslocamento do Hamas para o campo sunita, agora liderado pelo Egito, a Turquia e outros países da primavera árabe”, comentou Mokhemra Abu Saada, professor de ciência política na Universidade al Azhar, em Gaza.

Mas as mudanças de posição regionais ainda estão em fase inicial e experimental. Israel continua a acusar o Irã de incentivar o Hamas a intensificar o disparo de foguetes. Como observou Nasrallah em seu discurso, foram o Irã e a Síria que armaram o Hamas, sugerindo que ele enxerga o papel desses dois países como essencial.

Teerã, ademais, tem vínculos com grupos islâmicos armados menores na Faixa de Gaza. Esta semana o Ministério do Exterior iraniano minimizou relatos sobre um distanciamento do Hamas e disse que Teerã está do lado dos palestinos, especialmente “o Hamas e grupos islâmicos”. Mas, se o Hamas está encontrando seu lugar na nova ordem política na região, com uma legitimidade árabe aumentada, analistas dizem que as consequências de longo prazo disso podem não ser prejudiciais a Israel.

Abu Saada opinou que, não obstante o conflito mais recente, a “incorporação do Hamas no sistema árabe” pode levá-lo a moderar suas posições em relação ao Estado judaico, que ele ainda não reconheceu. Isso porque seus apoiadores, embora se solidarizem com sua causa, não são a favor da guerra.

Para o analista Yezid Sayigh, do instituto de estudos Centro Carnegie para o Oriente Médio, em Beirute, o Hamas pode estar se aproximando de um ponto semelhante ao que estava a Organização pela Libertação da Palestina nos anos 1970, quando foi reconhecida pelos árabes como representante dos palestinos, desde que moderasse suas posições.

“O Hamas está começando a ganhar reconhecimento e a romper o bloqueio diplomático e político. Mas, para capitalizar sobre isso, precisa estar disposto a ingressar num processo político e comprometer-se a não usar de violência, mesmo que não chegue a reconhecer Israel oficialmente”, disse ele.

 

 

Folha de S. Paulo

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