9 de novembro de 2012 - 08:03

Mais um caso Paraíba

Paraíba, você não tem vergonha na cara?”

“Paraíba, desde quando você começou a abusar de crianças?” (…)

Um paraibano ser chamado de Paraíba, no Sudeste brasileiro, até que seria motivo de orgulho. Seria, não fosse a forma pejorativa desse tratamento. Recentemente, em um famoso programa de televisão, ouvi esse nome como título de chacota. Estou falando do programa “Casos de Família”, exibido no SBT pela apresentadora Christina Rocha. É um programa que, diariamente, costuma tratar de assuntos familiares polêmicos, ou temas que são tabus na sociedade.

No dia 29 de outubro, o assunto abordado por Christina Rocha foi a relação sexual, ou “amorosa”, de pessoas maduras com menores de idade. E trouxe dois nordestinos, convidados da produção, para darem o testemunho de seus abusos. Um, do Estado baiano. O outro, da Paraíba. E foi no que deu!

Ambos estiveram no palco com suas companheiras, atualmente adultas, para serem sabatinados sobre o início de suas relações com elas, quando as mesmas tinham a faixa de 11 anos de idade. Sabemos que a legislação brasileira, e também a Oganização Mundial de Saúde, consideram crime grave a relação sexual entre adultos e crianças, resultante em coito ou não.

Mas não quero, aqui, entrar no mérito dessa questão. O tema da pedofilia é pano para outra manga. O que me chamou a atenção, mais uma vez, foi ver como o tal depoente, da Paraíba, esteve sendo tratado diante das câmeras. Independente do que cometeu no passado, e agora estando casado com a criança que não é mais criança, o homem era chamado, pela apresentadora, como Paraíba, um “Paraíba sem moral e sem vergonha na cara”. Essas menções insultantes, com o uso do nosso substantivo, extrapolaram o teor do próprio debate. Em outras palavras, o homem já não era um objeto de análise e sim um Paraíba que comia meninas.

Não é de hoje que paraibanos, ou “paraíbas”, são ridicularizados na mídia nacional. O termo “Paraíba”, como forma depreciativa de tratamento, ainda não tem prazo vencido de validade. Sei que a pedofilia é um crime, mas o programa perdeu uma grande chance de se aprofundar na questão. Visando ganhar alguns pontinhos no Ibope, preferiu armar esse grande circo de hipocrisia, agressão e leviandade. Usando a figura de um paraibano canhestro, de passado questionável, agrediu e ofendeu, ridicularizou novamente o nosso Estado, assim como já fizeram tantas celebridades.

Se Christina Rocha quis provocar o entrevistado, exibindo-o como um protótipo desse tipo de crime, que se restringisse somente a ele, e não o tratando como Paraíba em modo tão humilhante. Foram muitas as referências, e muitas as indagações sobre a sua conduta pessoal. Mas o que chocou nossos conterrâneos, até que provem o contrário, foi quando ela desferiu a sua pergunta mais grave:

“Me diga uma coisa, Paraíba: lá na sua terra, na Paraíba, os homens também são assim: gostam de pegar crianças como você?”

Quem duvidar, basta pesquisar na página do SBT. Cliquem no programa “Casos de Família” e localizem a edição de 29 de outubro de 2012.

 

tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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