3 de novembro de 2012 - 10:55

Crise no Sudão causa êxodo de cristãos

Hassan não fala, balbucia. Exprime com hesitação seus pensamentos. Não por ignorância ou timidez, mas porque tem medo. Mesmo num país multirreligioso como o Brasil, onde está de passagem, ele não revela o verdadeiro nome e teme dizer-se cristão. No Sudão, onde nasceu e cresceu, “não se pode ser isso”. Sua tribo está sendo massacrada nos Montes Nuba, onde a ação militar do governo muçulmano ganha ares de novo genocídio.

 

“O mundo conheceu Darfur (no oeste do país, onde mais de 300 mil pessoas foram mortas desde 2003, o que levou o presidente sudanês Omar Bashir ao banco de réus no Tribunal Penal Internacional), mas há novas guerras acontecendo no Sudão”, disse ao Estado o missionário, que fugiu para a capital, Cartum. Ele desconhece a própria idade. Usa um nome árabe para ter acesso a serviços públicos e não chamar a atenção entre muçulmanos. “Estão destruindo igrejas, queimando tudo”, diz.

Na faixa tênue que divide o sul e o norte do país, cristianismo e Islã se encontraram há mais de um milênio e se confrontam desde então. Nos últimos 40 anos os conflitos no Sudão deixaram mais de 2 milhões de mortos. Em 2011, um acordo dividiu o país e criou o Sudão do Sul, predominantemente cristão, enquanto o governo do norte muçulmano adotou o Islã como religião e a sharia (legislação islâmica).

Mas 350 mil cristãos permanecem no Sudão. São tribos de etnia diferente da maioria árabe, mas originalmente do Norte, o que faz com que esta não seja uma guerra apenas religiosa. É também um conflito étnico. Os habitantes do Sul tentaram anexar os Montes Nuba, mas o governo de Bashir não aceitou os termos da partilha.

Organizações humanitárias alertam para uma sangrenta campanha de assassinatos, estupros e limpeza étnica nos Montes Nuba. As forças de Bashir ameaçam derrubar helicópteros da ONU com ajuda humanitária, destruíram estradas, e com milícias árabes estão matando sistematicamente membros da etnia nuba, como a família de Hassan.

“Tivemos meses dramáticos, com um aumento inesperado de novos refugiados na estação das chuvas”, disse ao Estado o chefe da missão da Médicos Sem Fronteiras no Sudão do Sul, Philippe Le Vaillant. Mais de 130 mil refugiados atravessaram a fronteira. O campo de Yida, mais próximo, soma 65 mil refugiados, segundo a ONU. Mais de 500 chegam a cada dia. “Eles vêm dos Montes Nuba para escapar da fome, dos bombardeios, dos confrontos”, revela o enfermeiro.

Uma nova onda de “lost boys” (meninos perdidos) inundou os campos juntamente com as chuvas. É quando o conflito recua, pelo menos por terra, pois as enchentes bloqueiam os acessos. Uma vez que o risco de encontrar soldados no caminho é menor, os jovens arriscam-se na travessia das montanhas para o Sudão do Sul. Deixam para trás os velhos, os doentes e os mortos. Chegam aos campos sozinhos, em choque, desnutridos e enfraquecidos após semanas caminhando.

A taxa de mortalidade no campo de Yida chegou a 4 a cada 10 mil crianças até 5 anos, o dobro do nível emergencial da Organização Mundial de Saúde. “A situação melhorou um pouco com o trabalho de acesso a água e distribuição de comida. O fim das chuvas ajuda. Por outro lado, significa que os confrontos por terra recomeçarão em breve e devem empurrar mais gente para os campos”, teme Vincent.

A Agência da ONU para Refugiados (Acnur) tenta realocá-los para campos longe da fronteira, onde há menos riscos de confrontos, mas eles se recusam, pois esperam voltar para casa. “Eles cruzam a fronteira para fugir, mas não querem ficar no Sudão do Sul. Querem viver em paz em sua terra natal. O Sudão não permite a eles qualquer tipo de autonomia então lutam contra o governo central”, atesta o chefe da Médicos Sem Fronteiras.

“Eu estou no meio do confronto. Passaram uma risca na fronteira e eu fiquei do lado norte. São nossas terras”, diz Hassan.

Eliza Griswold, jornalista e escritora americana, autora de O Paralelo 10, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, diz que os conflitos no Sudão, assim como em outros países ao longo da linha que divide o norte e o sul onde cristianismo e Islã se encontram, nunca foram meramente religiosos, mas disputas por poder e recursos, como terras e o petróleo que corre no subsolo do Sudão. Na partilha, 75% das reservas ficaram com o Sudão do Sul, mas este depende dos oleodutos do norte para exportar o produto.

Bem distante da cúpula que disputa o poder, o missionário sudanês entende o conflito de outra forma: “Vivemos grandes e violentas guerras no Sudão porque muitos ainda não sabem de Deus”, acredita. Ele quer evangelizar crianças sudanesas quando voltar a seu país, mas esse trabalho pode lhe custar a vida.

Hassan trabalhava na construção civil para chineses, mas o governo de Bashir os proibiu de contratar cristãos. O missionário contribuía com uma escola, mas “as escolas cristãs foram fechadas”. Ele viajou a convite de uma igreja. É a primeira vez que deixa o Sudão. O que achou do Brasil? “Estranhei poder dizer a todo mundo, em todo canto, que sou cristão.”

 

 

Estadão

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