14 de agosto de 2012 - 09:39

De la Rúa senta no banco dos réus por escândalo de suborno a senadores

BUENOS AIRES – O ex-presidente Fernando De la Rúa (1999-2001) sentou nesta terça-feira, 14, no banco dos réus no Tribunal Oral Federal Número 3 pela acusação de ter pago subornos a um grupo de pelo menos seis senadores do Partido Justicialista (Peronista) no ano 2000 para conseguir a aprovação da lei de reforma trabalhista. De la Rúa teria pago US$ 5 milhões para aprovar a reforma, exigida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A presidente Cristina Kirchner, que na época do escândalo era senadora – e votou contra a lei de De la Rúa – foi convocada para prestar depoimento. No entanto, enviaria suas declarações por escrito ao tribunal. Além dela, outras 338 testemunhas também foram convocadas pela Justiça.

Também sentaram no banco dos réus o ex-diretor da Secretaria de Inteligência do Estado (Side), Fernando de Santibáñes, o ex-ministro do Trabalho Alberto Flamarique, o ex-pró-secretário parlamentar Mario Pontaquarto. Outros seis senadores estavam indiciados. Mas, somente participaram quatro, já que um deles não comparecerá por sofrer de Alzheimer, enquanto que outro – José Genoud – suicidou-se há quatro anos com um tiro no coração. Do total dos US$ 5 milhões, US$ 4,3 milhões teriam sido distribuídos aos senadores peronistas. Os restantes US$ 700 mil foram divididos entre Genoud e Flamarique.

O ex-presidente, por intermédio de seus advogados, afirmou que Pontaquarto não passa de um “mitômano” e que as acusações que enfrenta são “absurdas e cheias de contradições”. Pontaquarto retrucou: “as mentiras de De la Rúa foram uma constante neste tempo todo”.

De la Rúa transforma-se no segundo presidente civil argentino a ser julgado por corrupção. O primeiro foi Carlos Menem (1989-99), acusado de liderar uma quadrilha que realizou o contrabando de armas para a Croácia e o Equador entre 1991 e 1994. Menem, que há três anos tornou-se aliado da presidente Cristina Kirchner, foi inesperadamente absolvido no ano passado por juízes designados pelo kirchneirsmo. Se for considerado culpado no término deste julgamento, que poderia concluir daqui a seis meses, De la Rúa poderia receber uma condenação de até seis anos de prisão.

Subornos

O escândalo veio à tona quando o ministro Flamarique, disse em abril de 2000 em tom desafiante ao líder sindical Hugo Moyano, que conseguiria a aprovação da lei com os senadores graças à “Banelco”, nome de um cartão de débito utilizado na Argentina na época, em alusão ao eventual suborno aos parlamentares. Poucos meses depois, o vice-presidente Carlos “Chacho” Álvarez, renunciou, indignado com a falta de esclarecimentos. “A política deve deixar de estar associada ao delito”, disse no discurso de renúncia.

Na ocasião, De la Rúa defendeu-se argumentando que tudo não passava de uma intriga da imprensa. Nos meses seguintes o affaire dos subornos foi engavetado por “falta de provas”. Depois, De la Rúa arrematou: “aqui não há crise”. No entanto, em pouco mais de um ano, a saída de Álvarez causou uma disparada na taxa de risco da Argentina, a perda de poder político para De la Rúa, uma fuga de divisas sem precedentes na História do país, saques aos comércios e finalmente a queda do próprio presidente, que fugiu da Casa Rosada em um helicóptero em dezembro de 2001.

Em 2003 o caso dos subornos aos parlamentares ressurgiu quando o ex-pró-secretário parlamentar do Senado, Mario Pontaquarto, afirmando-se “arrependido”, decidiu “contar tudo”. Esse “tudo” consistia no pagamento que ele próprio teria entregue por ordem do governo De la Rúa a um grupo de senadores para que estes aprovassem a impopular reforma trabalhista.

Segundo ele, o suborno contava com a aprovação de De la Rúa, que ordenou que fosse encontrar-se com o então chefe do Serviço Secreto do Estado (Side), o banqueiro Fernando De Santibáñez para que este lhe desse o dinheiro. Agindo como um motoboy, Pontarquato levou os US$ 5 milhões em duas valises para onze senadores do Peronismo e da UCR. Ele sustenta que apesar de ter feito o “serviço” não recebeu um centavo sequer. O ex-secretário sustenta que contou o que sabia porque sentia “um peso” na “consciência”.

Perfil

O primeiro cargo público de De la Rúa foi de presidente do CPE (Caça de Pássaros com Estilingue). Tinha somente nove anos, mas ao tomar posse, o cordobês Fernando De la Rúa, nascido em 1937, redigiu uma declaração de princípios, preparou um estatuto e uma mensalidade a ser paga pelos sócios. Sua fama de chato começou nessa época.

Formado em Direito, entrou na política. Em 1973, o líder histórico líder da União Cívica Radical (UCR), Ricardo Balbín, o convidou para ser seu candidato a vice, contra Juan Domingo Perón, que os derrotou. Em 1983, integrante da linha conservadora do partido, disputou a candidatura da UCR à presidência do país contra seu colega Raúl Alfonsín, para quem perdeu. Posteriormente foi senador, deputado e em 1996, tornou-se o primeiro prefeito eleito da capital argentina.

Em 1999 – com uma campanha com o slogan “dizem que sou um tédio” (para diferenciar-se do festivo e frívolo menemismo) – este amante da ornitologia e da jardinagem foi eleito presidente da República. O candidato peronista derrotado, Eduardo Duhalde, definiu seu vitorioso rival: “é um medíocre com sorte”.

Mas a sorte foi breve, já que seu governo da coalizão UCR-Frepaso durou dois anos e dez dias. Os abalos sofridos pelo escândalo do Senado e a renúncia de seu vice Carlos “Chacho” Alvarez, foram coroados por uma fuga de divisas recorde que levou a economia ao colapso. Em dezembro de 2001 decretou o “corralito”, um confisco bancário sem precedentes no país que gerou a pior crise social, econômica e política da História argentina. Na época foi acusado de “relapso” e “esclerosado”. O caricaturistas o retratavam vestido com um pijama.

Desprezado por seus próprios correligionários da UCR, De la Rúa – fora da presidência – teve nulo poder político nos últimos dez anos. Analistas políticos sustentam, sem sutilezas: “De la Rúa não existe mais”.

 

 

Estadão

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