6 de agosto de 2012 - 07:58

Participação da Família na Escola

É comum os professores afirmarem que a família não ajuda as crianças no processo ensino/aprendizagem. Não deixa de ser uma ver­dade a afirmação dos professores. Tão verdadeiro quanto, é o fato dos professores não realizarem esforços para que esse quadro seja rever­tido. Outro fato, é que alguns professores, além de não fazerem nada para mudar a realidade, ainda criam obstáculos para os pais que “ou­sam” participar de atividades na escola. Pais não são convidados, nem estimulados a colaborar no processo de aprendizagem e ainda há quem os desestimule quando desejam ajudar.

Há diversos estudos que confirmam a importância da família na aprendizagem dos filhos. Por que os professores não potencializam a contribuição da família? Com a presença da família ou de outros cola­boradores na escola, os professores só têm a ganhar. Parece que existe certo medo da família, por parte de alguns.

Para trazer a família, a escola deve buscar apoio em organizações da comunidade: igrejas, universidades, grupos de jovens, associação de moradores, conselhos tutelares, unidades básicas de saúde da família, entre outros. Os que fazem à escola precisam oferecer alguma coisa às famílias para depois dizer o que desejam destas em relação à aprendi­zagem dos seus filhos. As famílias até desejam ajudar, mas não sabem como, precisam de orientação da escola e dos professores. Não esque­cer que entre os pais de alunos de escolas públicas, atualmente, há uma parcela com baixa escolaridade e outra parte que não tem nenhuma.

Quem tem muito a ganhar investindo na família é a própria escola, uma vez que sua ação acaba por não se restringir a seu alvo direto – crianças e adolescentes – mas, ao alcançar os pais, fecha um círculo e se potencializa. Ganha em cidadania, em eficácia e em relações in­terpessoais e institucionais, passando a ser reconhecida pelas famílias e por outras instituições. Consequentemente, os alunos vão aprender mais, com a ajuda dos pais.

Se ajudar a família a educar é importante, é fundamental ajudar os pais a recuperar a confiança em sua capacidade de educar; isto significa transformar as reuniões de pais em momentos de conversa e reflexão sobre os mais variados problemas que encontram em sua tarefa edu­cativa, incentivando-os a propor possíveis formas de atuação, criando um espaço onde possam recuperar a autoconfiança em sua capacidade de interferir positivamente na vida familiar. Ao discutir com outros pais assuntos comuns, ao serem ouvidos e considerados, ao verem suas sugestões aceitas pelo grupo, pais e mães vão se sentindo valorizados e participando de forma mais efetiva em outros fóruns de debate, no trabalho, na escola dos filhos e na vida comunitária.

Depois da família, a instituição social que mais influencia o desen­volvimento da criança é a escola. Ambas têm o papel de educar, cuidar e proteger crianças e adolescentes. No entanto, as diferenças entre essas duas instituições são muitas, como por exemplo, a maneira como divi­dem o tempo (que é muito mais visível e estruturado na escola) e a rela­ção que estabelecem entre adulto e criança (na escola tem forte caráter institucional, marcado pela burocracia e papeis muito bem demarca­dos entre professor e aluno). A aprendizagem formal que acontece na escola é mais verbal, fragmentada e descontextualizada, ao passo que em casa a aprendizagem é global e mais carregada de fatores emocio­nais e de maior significado prático imediato. Professores passam por um curso de formação para se habilitar à função, já os pais aprendem a exerce-la de forma muito menos sistemática.

Houve uma progressiva diminuição do tempo da criança junto à família, com isso a tarefa de socialização passou a ser também da esco­la, entretanto, esta vem relutando em incorporar tal responsabilidade. A missão da escola tornou-se mais complexa na medida em que a ins­tituição precisou acolher uma multiplicidade de arranjos familiares, fragilizados pelo desemprego e violência e pela falta de perspectivas de ascensão social. Não há um modelo ideal de família, há vários arranjos familiares. E o conceito de família pode ser múltiplo, variado e aberto a alterações constantes. A escola tem demonstrado dificuldades em con­viver com essa multiplicidade de modelos familiares.

Enfrentar e vencer preconceitos exige predisposição para conside­rar e ouvir a família na escola, compreender seus referenciais (não é preciso concordar, mas respeitar), evitando julgamentos apressados e simplistas, recriminações indevidas e expectativas pouco realistas sobre suas possibilidades de colaboração ou participação na vida dos filhos e da escola.

Não é uma estrutura de família diferente daquela tida como padrão que a torna desestruturada. A análise da realidade mostra que não é a forma de organização das famílias que é responsável pelo fracasso escolar ou por comportamentos considerados inadequados. Se o pro­fessor e a escola tiverem uma compreensão mais ampla da realidade será possível encontrar uma maneira de caminhar em direção às reais causas dos problemas e das dificuldades enfrentadas. A família sempre será uma aliada da escola, nunca um problema. Porém, os que fazem a escola, precisam saber utilizar melhor o potencial que representam os pais e a comunidade.

Há ações na escola e em casa que contribuem para aumentar a aprendizagem. Ajudar nas tarefas que a escola encaminha para o aluno fazer em casa não pode ser encarada como uma obrigação dos pais, mas como um compromisso destes com o melhor para os filhos. Com­promisso que é firmado a partir do empenho e da orientação de cada professor e da escola. Os pais não têm a mesma compreensão dos pro­fessores sobre a aprendizagem. Pais e professores pertencem a mundos letrados distintos. Nesse sentido, é um dever dos professores conquista­rem e orientarem os pais para ajudar na aprendizagem de seus filhos.

Os pais precisam ser atraídos para a escola e informados sobre o que os filhos estão fazendo no ambiente escolar. Os pais precisam ser motivados pelos professores para colaborar em diversas áreas. Ao par­ticipar de atividades dentro da escola, os pais podem, por exemplo, pro­mover atividades esportivas e campeonatos com os alunos, conservar o equipamento, ajudar alunos com dificuldades de aprendizagem. Ações pontuais como construir um muro ou recuperar a instalação elétrica são importantes, mas não precisam ser um fim em si mesmo, podendo funcionar como um ponto de partida para uma participação em longo prazo; além disso, se os filhos são envolvidos nessa atividade, trata-se de um aprendizado a mais e de um exercício de cidadania. A escola deve cuidar para que exista uma relação de “troca” com os pais: ao mesmo tempo em que ela pede seus serviços, deve também oferecer atividades diferenciadas dirigidas tanto aos alunos, como também aos pais.

Conseguir que mães e pais compareçam às reuniões da escola é o primeiro passo; o próximo é incentivá-los a participar, obtendo com isso benefícios para si mesmo, para seus filhos e para a escola. Ao invés de caminhar paralelamente, escola e comunidade precisam ter pontos de contato que de fato legitimem a função da instituição escolar, que façam desta uma escola com a “cara” de seus professores e da comu­nidade a que atende, e cujo projeto pedagógico tenha como objetivo servir ao interesse coletivo e promover a aprendizagem dos alunos.

Por que escola e comunidade caminham tão apartadas? Por que a distância atual? É melhor não imputar responsabilidade a qualquer das partes. Lembrar das conquistas em prol da escola, dos pais e, prin­cipalmente, da aprendizagem obtida nos espaços onde há uma parti­cipação articulada dos pais. Não há mistério na escola onde os pais estão presentes, há mais aprendizagem. Não há magia nem comunida­de diferente onde os pais participam da escola, há uma gestão escolar comprometida com as causas da educação e professores decididos a garantir a aprendizagem dos alunos.

pedro.lucio

Pedro Lúcio

Coluna

Foi dirigente sindical e Secretário de Educação de Campina Grande. É Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências e professor da Universidade Estadual da Paraíba - UEPB.

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