31 de julho de 2012 - 09:08

O teatro de Elpídio Navarro

Estou chegando atrasado, muito atrasado, para dizer que o meu amigo Elpídio Navarro morreu.

E ele chega atrasado, nesta coluna, não pelo fato de ter sido amigo do colunista. Ele vem aqui porque teve uma voz, sempre ativa, na história do teatro paraibano.

O homem da vida cênica, ator, professor, diretor, escritor e jornalista Elpídio Navarro é desses nomes que passam e deixam rastros difíceis de apagar. E olha que não foi passagem curta. Foram 56 anos dedicados ao teatro da Paraíba.

Quando alguém de teatro, neste Estado, consegue passar tantas décadas fazendo isso é porque nasceu com o teatro na alma; é porque o teatro é causa e não apenas paixão; é um compromisso, sem o qual não viveria ou jamais suportaria a existência. Vira emblema. É história imorredoura.

Com 56 anos de atividade na área, Elpídio não foi apenas o artista. Ele foi um realizador que fez por si e por outros. Idealizou e levou à frente importantes projetos para a sociedade através daquilo que gostava e sabia fazer. Mesmo nos últimos anos, aposentado, quando não mais pontificava diretamente nos palcos, a alma inquieta jamais se entregou ao ócio e o levou a cometer um teatro por outras vias, como forma de sobreviver espiritualmente.

Num reduto de Cabedelo, recolhido, ali escrevia seus textos dramatúrgicos, mantinha um blog muito visitado e de alto padrão opinativo, o Eltheatro. Era a sua alternativa para manter o exercício de uma prática que lhe foi a razão de toda a vida, o teatro. Escreveu comédias, dramas, crônicas e artigos sempre ácidos e polêmicos, e telefonava aos amigos quando sentia saudade ou mera vontade de conversar.

Sua grande obra foi o teatro em toda a plenitude, mas tem alguns marcos extremamente visíveis. O Theatro Santa Roza, do qual foi diretor em dois governos distintos, graças a Elpídio recebeu a sua maior reforma nesses 123 anos de existência da casa. Em 1989, Elpídio comemorou o centenário daquele teatro após fechá-lo por dois anos para uma reforma técnica e estrutural que dura até hoje. Ou que resiste!

Lembro que, após a reinauguração do Teatro, veio a mudança de Governo e Elpídio foi substituído por outro diretor. Quase não gozou da casa nova que ele tinha planejado e cuja reforma acompanhou e geriu, passo a passo, dia após dia, para que nada saísse errado.

Ao final, de cabeça erguida e deixando a cadeira, Elpídio foi para casa e disse apenas isto:

– Fiz a minha parte.

Sim, apenas a sua parte. O mesmo que poderia dizer agora, depois de fazer tantas outras partes para ir morar numa outra casa.

tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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