18 de julho de 2012 - 09:34

Sandra Santos e Rejaniel de Jesus

O Brasil está tão acostumado com espertalhões que, hoje em dia, honesto virou sinônimo de otário. Quem nunca ouviu aquela frase célebre, infame e pejorativa, segundo a qual “O mundo é dos mais espertos”?

Algumas pessoas escrupulosas, ou honestas, certamente já ouviram coisas do tipo: “Você nunca vai ter nada porque não passa de uma besta…”

Pois bem. O nosso amado Brasil, na semana que passou, encontrou um exemplo de que se pode lucrar com muita correção… Um sinal de que Honestidade pode ser sinônimo de Crescimento.

Rejaniel de Jesus dos Santos, de 36 anos, e a sua mulher Sandra Santos, são moradores de rua na cidade de São Paulo. Eles encontraram, no lixo, uma bagatela de 20 mil reais que tinha acabado de ser roubada num restaurante. O casal se encontrava sob um viaduto quando ouviu o alarme de uma empresa próxima. Eles saíram pra verificar e encontraram o tesouro, pegaram todo o dinheiro e o devolveram ao dono.

Resultado: tanto o homem como a mulher conseguiu emprego no restaurante furtado. O japonês Miguel Kikuchi, dono do negócio, ficou tão estarrecido com o gesto que ainda ofereceu-lhes farta refeição e quis presenteá-los com uma viagem, mas eles preferiram aceitar o emprego.

Devolver 20 mil reais, para quem ganha 100 reais ao mês como catador de lixo, é algo que beira o inacreditável. Em primeiro lugar, porque não roubaram, apenas acharam uma mina jogada em algum lugar, sem nem saber a quem pertencia. Se soubessem, e não devolvessem, teriam usado de má fé. O casal, ao contrário, procurou a Polícia, e a Polícia avisou ao restaurante que o seu dinheiro havia sido encontrado.

Sandra Santos e Rejaniel de Jesus já moravam na rua há mais de um ano, desde que ficaram desempregados. O que ganhavam diariamente, catando material reciclável, era tão insignificante que, feitas as contas, teriam que passar uns 16 anos de rua para conseguirem somar essas 20 mil pratas.

Mas Sandra Santos e Rejaniel de Jesus, num piscar de olhos, tiveram a sorte de encontrar a soma. Em outro piscar de olhos, tiveram a grandeza da devolução. Num país de Demóstenes e cachoeiras, de CPIs que se arrastam meses a fio, esses miseráveis deram um exemplo à nação, além de ganharem como recompensa os dois empregos que lhes faltavam. E ainda dizem que honestidade não bota ninguém pra frente!

Para esse casal, nós temos o dever dos melhores votos. Votos de êxito nessa nova vida e votos de proteção, segurança acima de tudo, depois do gesto que praticaram. O Brasil tem o dever de amparar essas criaturas. Proteger-lhes a integridade física e social. Mas proteger-lhes, também, como forma de proteger a nós todos, mantendo-os vivos em nossa memória e presentes, sempre, na consciência nacional.

tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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