10 de julho de 2012 - 08:08

A poesia de Ronaldo Cunha Lima

Se tem uma coisa que não sei analisar é poesia. E estou pouco me lixando para certos malabarismos de linguagem. Que me perdoem os entendidos, mas só gosto de poesia que me pega pelo coração e a mente. Vá ver é por isso que tenho um time tão restrito de poetas prediletos.

Digo isso para me reportar a um certo domingo de uns quinze anos atrás, manhã de chuva, em que li casualmente uma coisa que dizia assim: “ Essa chuva intermitente  /  É o céu dizendo à gente  / O valor dos intervalos…”

Não havia algo mais expressivo para me dizer, no fundo da alma, exatamente o que eu sentia naquele instante. O autor era um certo Ronaldo Cunha Lima, alguém que eu nem queria ouvir falar. Claro, eu tinha também o mesmo preconceito que ainda hoje persiste por um certo grupo de pessoas, “entendidas em poesia”, que ainda acham que Ronaldo poderia ter sido tudo, menos poeta.

Nos últimos anos, depois que Ronaldo se afastou dos cargos eletivos, todos passaram a tratá-lo como “poeta”. É praticamente uma unanimidade. Quando se referem a ele, quase não se diz “O político Ronaldo”, mas “o poeta”. Essa referência, no entanto, encontra paradoxo quando um determinado setor pensante, que tem a poesia como elemento de estudo, possui ainda uma resistência e faz questão de excluí-lo da lista.

Tudo bem, eu não digo que eles estejam errados. Como não sei analisar poesia, não tenho autoridade para questionar os críticos. O que posso dizer é que também já fiz parte dessa resistência, mas aquele terceto em manhã chuvosa foi o que me fez repensar esses conceitos. Quero crer, em que pese o fascínio que passei a ter pela obra dele, que Ronaldo Cunha Lima foi vitimado, como poeta, pelo simples fato de ser político.

Longe de mim o propósito de fazer excesso de comparações, mas não custa lembrar que Jorge Amado foi também político, Graciliano Ramos foi prefeito, Sarney é poeta e romancista de mão cheia, José Américo foi ministro e governador e, ainda assim, escreveu A Bagaceira, um dos romances mais importantes da literatura brasileira. No Governo da Paraíba, ainda tivemos outros bons romancistas como Ivan Bichara e Ernany Sátiro, além de Tarcísio Burity que foi um notável homem das letras. E Mário Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, chegou a disputar a presidência da república do Peru.

Política e literatura sempre se namoraram ou atiraram beijinhos – e são namoros que, em alguns casos, chegam a dar em casamento. Eu faço literatura e gosto muito, muito de política, e só não me candidato a um cargo eletivo porque sei que não tenho votos. Então não entendo que ainda haja preconceito, por parte de alguns intelectuais, em relação à poesia de Ronaldo Cunha Lima. Aliás, ao que nos consta na história, Ronaldo já escrevia poemas muito antes de qualquer eleição. O resto é meramente uma discriminação anacrônica. É mera intolerância.

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Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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