4 de julho de 2012 - 06:12

Tantas outras Gabrielas

No último dia 15 de junho, quem assistiu ao Globo Repórter há de recordar uma passagem em que foi sugerida a existência real de Gabriela, personagem do romance de Jorge Amado. O programa daquele dia, que teve o escritor baiano como tema, na verdade era um chamamento para o remake dessa novela que estrearia na segunda-feira seguinte. Em que pesem as curiosidades apresentadas, o programa vinha muito bem, até ao momento em que resvalou nesse apelo sobre a existência ou não da personagem.

Chegaram mesmo a mostrar um local onde Gabriela teria morado. Exibiram a imagem de uma gordinha simpática que não tem nada a ver com esse modelito global à la Sônia Braga e Juliana Paes. Chegaram a entrevistar um suposto neto de Gabriela, o rapaz titubeou e, meio que envergonhado, tudo o que respondeu foi que a sua avó não era desse jeito que Jorge Amado escreveu. Traduzindo: a bela e gostosa Gabriela, que a macharada adora, pode ser qualquer uma, desde que não seja a filha, a mamãe ou a vovó.

Leitor integral de Jorge Amado, desde a adolescência, não lembro de qualquer declaração do autor sobre a existência dessa mulata. Gabriela integra uma galeria de outras Gabrielas fictícias do Jorge – a exemplo de Tereza Batista, Tieta e Dona Flor, para ficarmos apenas nas personagens-título. Ela pode até ter existido, ou existiu alguma similar que lhe serviu de inspiração, mas Jorge nunca disse isto. O apelo da reportagem, quanto a esse assunto, pode ter sido uma lenha a mais para a chama já acesa de uma audiência de Ibope, já que o povo adora histórias inspiradas em fatos reais.

O real nessa obra de ficção, e que está bem acentuado na novela das onze, é o fundo histórico de uma cidade brasileira em franco desenvolvimento econômico e cultural, graças à produção cacaueira naquela região da Bahia. Gabriela, porém, tendo existido ou não, não é a única na literatura ou em outras modalidades artísticas do Brasil.

Essa retirante sertaneja, bela e tentadora que chega em certo lugar por causa da seca, é a mesma Soledade que José Américo apresenta em A Bagaceira. Essa retirante tem outra similar na célebre canção de Joubert de Carvalho, intitulada Maringá (ou Maria do Ingá), um nome que inclusive tornou-se marca da nossa cidade de Pombal. Ela tem parentesco com outra sertaneja das secas no século 19, Luzia-Homem, personagem do romance homônimo de Domingos Olímpio. Enfim, é um tema bastante recorrente.

Na verdade, o que há em comum entre essas beldades, além do drama social das grandes estiagens, é o seu poder de enfeitiçar os homens com essas paixões arrebatadoras, através de uma sedução que encanta e que fatalmente redundará em tragédia. Como vemos, temos tantas outras Gabrielas iguais. E o resto é mera coincidência.

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Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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