27 de junho de 2012 - 10:54

Governo sírio abandona reunião da ONU para apresentação de relatório

GENEBRA – O governo da Síria abandonou a reunião convocada pela ONU apresentar o informe preparado pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da comissão de investigação criada pela entidade. Faisal Hamwi, embaixador sírio na ONU, acusou o relatório do brasileiro de “tendencioso” e de apontar para “mentiras fantasticas”. ONU síria tem apenas um ponto de acordo: a síria vive uma “verdadeira guerra”.

No informe, Pinheiro acusa o governo, mas também a oposição, de “sério crimes” e alerta que país mergulha em uma conflito armado.

“Não vou ficar aqui escutando mentiras, ofensas e hipocrisias, enquanto se financiam grupos armados por países estrangeiros e se chupa o sangue de mártires”, acusou o sírio. “Estamos em uma guerra genuina”, alertou. Ao Estado, Hamwi também insistiu que não “havia sentido” em continuar com “reuniões hipócritas”.

Observadores da ONU na Síria também apontaram hoje para o fato de que o confronto já é maior hoje que antes do próprio cessar-fogo estabelecido pelo mediador Kofi Annan, no dia 12 de abril.

Pinheiro usou o encontro para apresentar ainda seus resultados sobre o massacre de Hula. Sua comissão de investigação suspeita que o governo sírio seja o principal responsável por grande parte das mortes no massacre de Hula, há um mês. Mas não descarta que a oposição poderia estar envolvida, tentando assim gerar uma escalada do conflito, assim como grupos estrangeiros. “A comissão de investigação não é capaz de determinar a identidade dos autores (dos crimes) nesse momento”, alerta o documento. “Entretanto, a comissão considera que forças leais ao governo podem ter sido os responsáveis por muitas das mortes”.

No dia 25 de maio, mais de cem pessoas foram mortas na região de Hula, muitas delas crianças e mulheres, gerando uma reação internacional. Pinheiro recebeu o mandato da ONU para apurar o incidente e, hoje, levará à ONU fotos de satelite da região destruída e uma verdadeira reconstituição dos crimes. O documento de 21 páginas relata uma cronologia de horrores.

Tudo teria começado com uma manifestação anti-Assad após orações no vilarejo de Taldou. O governo atacou e isso foi seguido por uma resposta de grupos armados. Segundo a investigação, muitos morreram já nesse episódio. Mas o horror não terminaria ai. De acordo com a investigação, o bombardeio do governo continuou pelo dia e, já durante a tarde, o número de vítimas chegava a 50, grande parte da familia Abdulrazzak que vivia 500 metros de uma barreira do exército, próximo a um hospital e companhia de água controladas pelo regime. Outros 15 membros da família Al-Sayed seriam mortos mais tarde.

A descrição é das mais chocantes. Mulheres e crianças teria recebido tiros na cabeça. “Entrevistados que chegaram na residência dos Abdulrazzak descreveram cenas de horror, com homens, mulheres e crianças amontoados em cantos de salas”, escreveu, apontando para sangue na parede e corpos pelas ruas. Machados e facas também foram usados.

Responsáveis – Segundo a investigação, existem três cenários possíveis em relação aos responsáveis. O primeiro aponta para o envolvimento do governo e de milícias pró-Assad. Entre os indícios para sustentar isso está o fato de que o governo não fez nada para proteger o local no dia seguinte para permitir uma investigação e que, misteriosamente, os soldados nos checkpoints que existiam desapareceram. O brasileiro alega que as forças do governo estão presentes de forma permanente na região, inclusive com serviços de inteligência.

Essas posições do exército davam uma visão “limpa” às casas que foram atacadas. A maneira pela qual as famílias foram mortas seriam similares ainda a outros crimes cometidos pelo governo. Se não bastasse, tudo indica que os moradores da cidade apoiavam os rebeldes e foram justamente os grupos de oposição que “primeiro chegaram à cena do crime, cuidaram dos feridos, prepararam os enterros e estavam em grande número nos funerais”. Para completar, aquele que se salvaram fugiram para áreas controladas pelos rebeldes.

Outro fator que apoia essa tese é o fato de que, das posições do governo no hospital e na companhia de água, se veria qualquer movimentação de veículos de grupos armados. Além disso, dos checkpoints, se escutaria o massacre.

A acusação também aponta para a “cumplicidade do governo”, já que tudo indica que as barreiras do exército, justamente naquele dia, estavam fazias. Uma das testemunhas indicou ainda que dois mini-onibus chegaram de uma estrada que vinha de um vilarejo Alawita. Outros apontaram que vinham do hospital e da companhia de água. “A cumplicidade dos funcionários da barreira era tudo o que seria necessário para um acesso de forças pró-governo”, indica. Para a comissão, portanto, a posição dos checkpoints deixa claro que aqueles funcionários sabiam do que iria ocorrer.

Rebeldes – A segunda hipótese é o envolvimento de rebeldes que estariam “tentando escalar o conflito, enquanto puniam aqueles que não apoiaram a rebelião”. Pinheiro não deixa de apresentar a versão do governo, que diz ter sido alvo de um ataque de até 800 “terroristas” e que as vítimas entre os civis eram aquele que se recusaram a se opor ao governo. Damasco alega que a família Al-Sayed foi alvo do ataque por ter ligações com o deputado Abdelmuti Mashlab. Mas Pinheiro deixa claro que os sírios não atendem os “padrões internacionais” na metodologia da investigação.

O relatório de Pinheiro admite que existiria um militar aposentado e um militar na ativa entre as vitimas. Um video ainda mostrava que uma das crianças mortas levava uma bandeira síria como bracelete, uma indicação de sua orientação pró-Assad. Outra indicação teria sido o descobrimento de uma faca usada no crime, com um slogan xiita: “Sacrificaremos a nós mesmos por Hussein”.

Para a comissão, os rebeldes poderiam ter acesso à residência dos Abdulrazzak, mas seria dificil chegar à família Al-Sayed. “Portanto, enquanto não se descarta a possibilidade de rebeldes serem os responsáveis pelas mortes, considera-se como improvável”, aponta.

Para concluir, a investigação aponta para a presença de “grupos estrangeiros com filiação desconhecida”. “A comissão não pode descartar a possibilidade desse envolvimento”, disse. “A comissão recebeu informações que grupos anti-governo em Taldou receberam naquele dia o apoio de “outros grupos de áreas vizinhas”. Testemunhas também descreveram os autores como tendo “cabeças raspadas e barbas longas”, numa indicação de que seriam grupos islâmicos.

“Portanto, com as evidências disponiveis, a comissão não pode descartar nenhuma possibilidade”, indicou. Mas a comissão coloca pressão de todas as formas sobre o governo. “O onus da proteção dos cidadãos é do governo. Seja quem foi que cometeu o crime, é o estado que tem a responsabilidade de investigar e levar para a justiça os responsáveis”, concluiu.

 

 

Estadão

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