27 de junho de 2012 - 10:52

Crise no Paraguai expõe conflito entre sem-terra e brasiguaios

Na estrada de terra que cruza as prósperas plantações de soja e milho de fazendeiros brasileiros em Ñacunday, no sudeste do Paraguai, a monotonia da paisagem é bruscamente alterada por um gigantesco acampamento no alto de um morro, de onde emanam torres de fumaça.

Lá, numa área reclamada pelo catarinense Tranquilo Favero, conhecido no país como “o rei da soja”, 5.000 famílias de trabalhadores sem-terra se instalaram em barracas há oito meses para pressionar o governo a lhes conceder porções de terra na região.

À entrada do acampamento, um sinal de que a convivência entre o grupo e o produtor de soja não anda muito boa: preso a uma forca, um boneco teve o nome Favero estampado em seu peito. Abaixo da inscrição, um recado ao fazendeiro: “vai morrer assim”.

A tensão entre sem-terra e “brasiguaios” (como são chamados os cerca de 350 mil brasileiros e seus descendentes que começaram a migrar para o Paraguai em busca de terras baratas nos anos 60) alcança seu ápice em Ñacunday e explica por que a maioria da comunidade apoiou o impeachment do presidente paraguaio Fernando Lugo, na última sexta-feira.

Primeiro presidente esquerdista na história recente do Paraguai, Lugo era apontado por grandes proprietários de terra como um aliado dos sem-terra. Segundo fazendeiros “brasiguaios”, enquanto permaneceu no cargo, ele estimulou ocupações, o que teria provocado uma escalada na violência no campo.

Já os sem-terra dizem que simplesmente intensificaram seus esforços para conquistar parte das terras ocupadas “ilegalmente” pelos brasileiros durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

MORTES

Em 15 de junho, um tiroteio durante uma ação de reintegração de posse na fazenda de um paraguaio em Curuguaty, ao norte de Ñacunday, provocou a morte de 11 sem-terra e seis policiais. O episódio foi citado por congressistas paraguaios como uma mostra de que Lugo perdera o controle dos conflitos agrários. A matança foi um dos argumentos dos parlamentares para destituí-lo, na última sexta-feira.

Para os sem-terra, porém, o confronto em Curuguaty foi desencadeado por “mercenários contratados”, que haviam se escondido entre as árvores sem o conhecimento do grupo nem dos policiais. Segundo os “carperos”, como os sem-terra são chamados no Paraguai por viverem em “carpas” (barracas), a ação foi armada por poderosos descontentes com o governo Lugo para desestabilizá-lo.

A queda do ex-bispo e a posse do novo presidente, Federico Franco, político à direita do antecessor, gerou apreensão entre a maioria dos líderes sem-terra. Em Ñacunday, eles temem que a mudança fortaleça os “brasiguaios” na disputa, que nos últimos meses ganhou contornos macabros.

No início de maio, o fazendeiro brasileiro Fábio Ruffato, de 35 anos, e seu pai, Valmir Ruffato, 53, foram presos acusados de assassinar três sem-terra que pescavam em sua propriedade. Após serem mortos por tiros, Javier, 25, Justo César, 21, e Oscar Alfredo, de 19, foram estripados.

O advogado Alfredo Maggi, que defende a dupla brasileira, afirma que Fábio confessou o crime, mas que seu pai é inocente. Segundo ele, o brasileiro alegou ter sido provocado anteriormente pelo trio, que já teria entrado na fazenda sem permissão outras vezes. Se condenado, diz o advogado, Fábio pode passar até 25 anos na cadeia.

Segundo Federico Ayala, líder do assentamento Santa Lucia, em Ñacunday, outros dois “carperos” foram mortos por “brasiguaios” na região nos últimos meses. Ele diz que um jovem foi atropelado propositalmente por um caminhão de Favero, e que outro foi alvejado enquanto passava por uma de suas propriedades.

“Todo brasileiro na área é inimigo dos camponeses. Eles estão aqui ilegalmente, são usurpadores”, afirma Ayala.

Para Guillermo Duarte, advogado de Favero, as acusações do líder sem-terra “são descabidas, temerárias e deveriam ser feitas ao Ministério Público”.

“Essa confusão toda se gerou porque o ex-presidente [Lugo] os enganou, induzindo-os a invadir aquela terra. Mas é uma propriedade privada, que estava prestes a ser cultivada.”

Duarte rebate também a acusação de que Favero não detém o título da terra. “Os títulos foram apresentados ao juiz, e não aos sem-terra. Por isso a ordem de despejo foi emitida”. O advogado diz esperar que, com a troca no governo, a ação “se cumpra imediatamente”.

Nem todos os líderes sem-terra, porém, adotam discurso tão inflamado contra os “brasiguaios”. Principal dirigente da Liga Nacional de Carperos (LNC), um dos maiores movimentos sem-terra paraguaios, José Rodríguez diz à BBC Brasil que “para nós não existem brasiguaios”.

“Ou são brasileiros, ou são paraguaios. Não somos contra os brasileiros legalmente estabelecidos no Paraguai, mas sim contra a outorga ilegal de terras a estrangeiros”.

Segundo ele, porém, “lamentavelmente os brasileiros são a maioria entre esse grupo”.

“Eles se assumem como brasileiros ou paraguaios conforme a conveniência. E tentam difundir a falsa ideia de que somos xenófobos”.

‘TODOS TÊM TÍTULOS’

Representante jurídica dos “brasiguaios” e assessora do Itamaraty, a advogada “brasiguaia” Marilene Sguarizi nega que haja brasileiros estabelecidos ilegalmente no Paraguai. “Todos os colonos brasileiros têm títulos”. Ela diz, no entanto, que em parte das contendas entre “brasiguaios” e sem-terra estão em disputa áreas adjacentes às terras tituladas.

Segundo ela, embora as áreas pertençam ao Estado e sejam reclamadas pelos sem-terra, os brasileiros investiram nelas e merecem, portanto, continuar ocupando-as.

Ela afirma ainda que outros conflitos se dão em terras ocupadas pelos brasileiros que tiveram títulos duplicados por “máfias”. Nesses casos, a advogada também argumenta que, por terem tornado produtivas terras inóspitas, os brasileiros detêm a primazia de cultivá-las.

“A contribuição dos colonos brasileiros fez com que o Paraguai se tornasse o quarto maior produtor de grãos do mundo”, ela afirma. “Nossa produção contribui com 23% da economia do país”.

“Os brasileiros escolheram este país para criar seus filhos e netos”, diz Sguarizi. “Estamos economicamente bem. Não queremos voltar e não vamos voltar.”

 

 

Folha de São Paulo

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