10 de junho de 2012 - 09:01

A Noite do Skylab

Em 1979, o mundo ia se acabar. Antes, muito se ouvia dizer que haveria o fim do mundo até chegar o ano 2000. Que estava escrito na Bíblia. Eram desígnios de Deus.

Uma estação espacial dos Estados Unidos, que se encontrava a uma altitude de 435 quilômetros da órbita terrestre, entrara novamente na atmosfera e vinha descendo em nossa direção. Tinha o nome de Skylab, um satélite destruidor que já nos assustava a partir do nome, o qual se pronunciava como “escailabe”.

A notícia da queda sacudia o mundo. Em todos os países, dizia-se, não se falava de outra coisa. Foram três ou quatro dias de espera – e de susto, medo, clamor.

– Vai cair quando? – era a pergunta corrente em todas as bocas.

As hipóteses corriam soltas, conforme a imaginação e o exagero de cada indivíduo.

– Cai na sexta-feira – dizia um.

– Não, ele já cai na quinta – dizia outro, fazendo bicho maior.

Alguém se contraía, apertava os pulsos, resignava-se assim:

– Tomara que caia de madrugada, quando eu estiver dormindo, que é para não sentir nada.

E, nas esquinas e bodegas, ou salas de visita, alguém acrescentava sempre um dado novo:

– Ouvi dizer que vai cair lá pras bandas do Vale do Piancó, mas o impacto será tão grande que vai atingir tudo por aqui.

– E quem lhe disse isso?

– Ouvi dizer.

– Ouviu dizer por quem?

– Sei lá. Parece que saiu no rádio.

– Pois eu escuto rádio o dia inteiro, mas não ouvi nada disso.

Lá vinha o Skylab descendo, numa velocidade de milhões de anos-luz. Eu não tinha ideia do que significava “milhões de anos-luz”, mas todos diziam isto e eu só imaginava uma enorme velocidade. Meu pai morava em São Paulo naquele tempo, o que me deixava ainda mais preocupado:

– Será que o Skylab vai destruir São Paulo?

– Claro que vai, não escapa nada. Mas ouvi dizer que vai começar pelo Rio de Janeiro.

Até que chegou o dia, e o povo andava em silêncio pelas ruas, o pavor estampado em todos os rostos. Parentes chegavam de sítios distantes para juntarem-se aos seus. Algumas casas, ao contrário, foram desocupadas, pois as famílias migravam para as suas fazendas no fim de morrerem lá.

Vi muitos carros saindo das portas, os vizinhos se despedindo; vi outros carros chegando e as pessoas se trancando dentro das casas de paredes largas, achando que as paredes largas pudessem protegê-los do impacto. O Skylab deveria cair por volta das 10 ou 11 da noite, conforme estava previsto. Cedo, à noitinha, todas as igrejas rezaram missas, um padre convocado para cada capela, e o povo rezando de mãos dadas, pedindo para o mundo não se acabar ou, então, no caso de se acabar mesmo, que fossem todos para o céu. Na Rua João Pessoa, por volta das 10 horas, outra corrente se fez, e uma vizinha gritou assim:

– Eu vou para casa e me esconder debaixo da saia de Santo Antonio.

O povo ria com isso, e eu não conseguia entender como conseguiam rir duma situação como aquela. Vi um bêbado famoso, chamado Parrela, que dava altas gargalhadas na rua, sentindo prazer em gritar aos sóbrios:

– Eita, é hoje! É hoje que todo mundo vai se lascar! Quero ver tudo se danar pro Inferno!

Rodopiava no meio do calçamento, dançando, jogava as mãos para o céu e gritava:

– Vem logo, Escailabe! Por que danado tás demorando tanto?

Até hoje não sei se ele queria morrer ou se não acreditava na história. Ao ouvi-lo, porém, ficou-me um pouco de esperança, a ponto de conseguir dormir por volta da meia-noite. Tive pesadelos horríveis: o fogo se alastrando sobre os nossos telhados e uma chuva de asteróides despencando nas ruas, estradas e matagais. Vi a cidade de São Paulo em chamas, o Rio de Janeiro, o Vale do Piancó – lugares que eu nunca tinha ido na vida.

Mesmo assim, dormia, sem saber o que se passava lá fora. Ao amanhecer, percebi que o mundo respirava. Abri a janela e vi o homem da padaria levando os pães numa bicicleta; a carroça do leite passando e um menino dando chicotadas no burro; e Dona Tereza, na casa em frente, varrendo o seu terreiro como todos os dias, como se nada tivesse acontecido. Em que dera, afinal, tanta falácia? Será que tudo fora apenas um sonho? O Skylab não caíra?

Não fora um sonho, não. O Skylab tinha caído durante a madrugada e o mundo não se acabara. Ao longo do dia, todos falavam que uma tal de Nasa tinha conseguido desviar o curso para o oceano, e o satélite despencara nas lonjuras de um mar perto do México.

– Quer dizer que ninguém morreu?

– Acho que somente os peixes.

Daquela vez, os homens salvaram a nossa pele. Desde então, passei a acreditar que o fim do mundo existia, e que não eram vinganças nem desígnios de Deus, mas qualquer uma coisa que caísse do céu.

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