10 de junho de 2012 - 09:00

Novo artigo: METONIMIA

Na propaganda do canal SPORTV, numa operadora de TV por assinatura, para divulgação de um amistoso que será realizado hoje entre Brasil X Argentina, um fato me chamou atenção. Na mesma chamada publicitária colocava o confronto entre Neymar x Messi, e não como um duelo entre duas nações ou duas escolas de futebol distintas que travam uma histórica disputa ao longo dos anos pela hegemonia continental dessa modalidade esportiva, há até quem diga que esses países ostentam a maior rivalidade do mundo nesse esporte, buscando assim, a superação em detrimento do outro, tentando a vanguarda em relação ao rival.

Que o Brasil não é mais o mesmo em relação ao futebol, todo mundo sabe, inclusive o treinador da seleção Mano Menezes e a crônica esportiva por completa. Isso não é mais apenas uma tragédia anunciada, mas uma realidade catastrófica, pois, em assim se mantendo, a copa no Brasil de 2014 não será dos brasileiros, mas, pelo desenhar da realidade, será estrangeira. “A taça do mundo” não será nossa, cenário esse preocupante, no entanto, racional, lógico e previsível nos tempos atuais, basta assistir a própria propaganda, não se exaltam mais o Brasil e Argentina e sim o Neymar X Messi, muito subjetivo para compreender que o que chama mais atenção e apelação do público, não será a disputa internacional, mas, o duelo entre dois grandes jogadores, na atualidade os maiores do mundo, maiores mesmo que o sentimentalismo e o nacionalismo sempre prevalente nesse confronto, especialmente, em tempos de preparação para as disputas de mais uma Copa do Mundo.

Numa Sinédoque (Tipo de metonímia), essa propaganda me deixa extremamente preocupado e decepcionado, não pela utilização de uma figura de linguagem intrínseca e subjetiva inerente a chamada publicitária, dificilmente se perceberia tal aberração, se não pelos olhos e o entendimento de que o Brasil não é mais o país do futebol, continua sendo o das “Figuras de Linguagem”, e em assim continuando podemos até entender e aceitar tal situação. Mas como aceitar essa perda do sentimento nacionalista, que empregou ao longo da história do futebol um acirramento muito forte, capaz até mesmo de modificar conceitos e opiniões na reciprocidade entre elas. Ver um Brasil e Argentina como Neymar e Messi é triste, porque não dizer, terrível, mesmo com o talento espetacular dessas duas figuras.

Será que estamos tão mal assim em relação ao esporte Bretão? Será que uma chamada colocando como no passado “O todo pela parte” ao invés e em detrimento de “A parte pelo todo” não chamaria atenção do mercado publicitário. Nosso futebol, tão vitorioso precisaria recorrer aos cabelos horríveis e Moicanos do Neymar, figura essa, mais talentosa do que física e aparentemente chamativa. Essa situação me comoveu e como comentarista esportivo que sou, a exemplo de mais de 193 Milhões de outros “Tupiniquins” não poderia me calar e, nesse final de semana escrever por exemplo sobre as alianças partidárias que se desenham em nossa cidade. Cometeria e ocorreria assim também na mesma espécie de Metonímia, trocando o todo (Nação) pela parte (Política local), perdoe-me os leitores dessa coluna, mas, achei de muita importância me resignar contra essa realidade perturbadora da situação em que chegamos com nosso maior patrimônio cultural, que define-nos no cenário internacional, que traça marcantemente nossa posição e nosso povo lá fora, não somos o país do Neymar, somos a nação do futebol, apesar de não termos o inventado, o nosso futebol está nas nossas almas.

O Neymar não é nada sem o futebol, nem tão pouco seria conhecido se jogasse pelo Azhni sei lá o que da China e pela própria seleção chinesa ao invés de Santos e Brasil respectivamente. Mas nos tempos atuais, me parece que o mercado publicitário se comove mais com Messi, Neymar, CR7 e até mesmo o aposentado ainda em atividade de relampejos R10 (Ronaldinho Gaúcho) que parece que será o R9 esse ano. Portanto estamos diante de um cenário nebuloso e equivocado.

Nessa conjuntura é difícil entender essa mudança, via de regra, isso ocorre sempre, na verdade sempre marchou junto o futebol as gigantescas quantias em dólares, euros e agora o próprio Real envolvidas nesse ramo. Imaginemos que o tempo da “Roda grande, girar na pequena” chegou, e chegando para ficar e mudar as regras e a paixão dos torcedores, especialmente aqueles alucinados. Diante disso, é normal ver, por exemplo, clubes a exemplo do Flamengo e Santos receberem mais ou menos, conforme seus elencos, numa inversão de valores por completa. O Flamengo recebe mais não por sua grandeza, mas, por ter em seu elenco uma figura do tipo Ronaldo Gaúcho, por exemplo, a mesma coisa ocorre com o Santos de Neymar e outros pelo país afora. Chegamos, enfim, a nova fase do futebol brasileiro, onde a ídolo é maior do que a instituição, apesar de vez por outra alguém se contraria e negar tal afirmativa, na verdade estamos diante de tal aberração, distorcida por mecanismos mercantilistas e elitistas.

Temos de corrigir isso rapidamente, pois, se assim não procedermos, correremos o risco de até mesmo nossa bandeira e a da Argentina também ser substituídas em breve por fotos desses mercenários. Que tal num duelo entre Brasil e Inglaterra, no lugar do nosso símbolo maior em se tratando de “Nacionalismo”, tivermos duas fotos nos mastros principais, uma de Neymar com seus cabelos esquisitos e David Beckham com seus cabelos loiros e olhos claros, certamente agradará as tietes, mas envergonhará nossa história. Weber atenta para essa problemática, nos seus escritos antigos – “O perigo de trocarmos nossos símbolos maiores” pelos menores.

Portanto ao assistirmos esse confronto, esqueçamos dos dois e foquemos nossas atenções no conjunto completo, no todo, ao invés de assistirmos apenas a uma parte, a disputa entre dois coadjuvantes, que em breve passarão como outros passaram, mas o Brasil e Argentina, ainda sobreviverá por muitos anos, mesmo, sendo ameaçado pela voracidade do mercado publicitário. O que identifica o Brasil lá fora é a “Amarelinha”, não os cabelos do Neymar.

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