30 de junho de 2015 - 06:40

Meninas sequestradas na Nigéria ‘são forçadas a matar em nome do Boko Haram’

Algumas das estudantes sequestradas na Nigéria há mais de um ano foram forçadas a se unirem ao grupo militante islâmico Boko Haram, disseram testemunhas à BBC.

Agora, algumas estão sendo usadas para aterrorizar outros reféns e estariam, elas mesmas, realizando execuções. Muitas das estudantes capturadas em Chibok, no norte da Nigéria, são cristãs e 219 meninas seguem desaparecidas.

Três mulheres que dizem ter sido mantidas nos mesmos campos usados para abrigar as meninas de Chibok disseram ao programa Panorama, da BBC, que algumas delas passaram por uma “lavagem cerebral” e que realizam punições em nome dos militantes.

Miriam (nome fictício), de 17 anos, escapou do Boko Haram após seis meses como refém do grupo. Foi forçada a se casar com um militante e agora está grávida dele.

Ela diz se lembrar dos primeiros dias no campo. “Eles disseram para que a gente se preparasse, que eles iriam nos casar.”

Miriam e outras quatro se recusaram.

“Eles voltaram com quatro homens. Eles cortaram a garganta deles na nossa frente. Então, disseram que isso aconteceria com qualquer garota que se recusasse a se casar.”

Assim, aceitou. Foi, então, estuprada por diversas vezes. “Senti tanta dor”, disse. “Estava ali só de corpo… Não podia fazer nada sobre isso”.

Enquanto no cativeiro, Miriam disse ter se encontrado com algumas das meninas de Chibok. Conta que elas eram mantidas em uma casa separada dos demais reféns.

“Eles disseram: ‘Vocês, mulheres, deveriam aprender dos seus maridos porque eles estão dando sangue à causa. Nós também devemos ir à guerra em nome de Alá.'”

Miriam disse ter testemunhado algumas das meninas matarem diversos homens no vilarejo.

“Eles eram cristãos. Eles (combatentes do Boko Haram) forçaram os cristãos a se abaixarem. Então, as meninas cortaram as gargantas deles”.

Os relatos não podem ser confirmados, mas o grupo Anistia Internacional diz que outras meninas sequestradas pelo Boko Haram foram treinadas e forçadas a lutar pelo grupo.

“A abdução e brutalização de jovens mulheres e garotas parece ser parte das operações do Boko Haram”, disse Netsanet Belay, diretor da Anistia Internacional para a África.

‘Elas tinham armas’

As meninas de Chibok não são vistas desde maio, quando o Boko Haram divulgou um vídeo mostrando cerca de 130 delas juntas, recitando o Corão. Elas pareciam aterrorizadas.

A Anistia Internacional estima que mais de 2 mil meninas tenham sido sequestradas desde o início de 2014. Mas foi o ataque na escola em Chibok que gerou comoção internacional.

Milhões de pessoas apoiaram a campanha “#bringbackourgirls” (“traga de volta nossas meninas”) nas redes sociais – a hashtag foi compartilhada mais de 5 milhões de vezes.

O Boko Haram, que matou cerca de 5,5 mil civis na Nigéria desde 2014, tenta estabelecer um Estado islâmico na região, mas tem sido contido por uma ofensiva militar da Nigéria e vizinhos. Centenas de mulheres e garotas têm escapado durante operações.

Anna, de 60 anos, foi uma delas. Escapou de um campo na floresta de Sambisa em dezembro, onde foi mantida por cinco meses. Sentada sob uma árvore perto da catedral de Yola, capital do Estado de Adamawa, conta ter visto algumas das meninas antes de fugir.

“Elas tinham armas”, disse. Seus únicos pertences são as roupas com as quais ela fugiu.

Perguntada como poderia ter certeza de que se tratava das meninas de Chibok, disse: “Eles (o Boko Haram) não as esconderam. Eles nos disseram: ‘Estas são as suas professores de Chibok.'”

“Eles colocavam as meninas como professoras para ensinar grupos de mulheres e meninas a recitar o Corão.”

Anna, como Miriam, disse ter visto algumas das estudantes cometerem execuções.

“As pessoas estavam amarradas e abaixadas e as meninas assumiram ai… As meninas de Chibok cortaram as gargantas deles”, disse Anna.

“Não é culpa delas, elas foram forçadas a fazer isso”, disse. “Qualquer um que ver as meninas Chibok tem que sentir pena delas”.

Tentativa de conversão

Expor mulheres à violência extrema parece ser uma estratégia do Boko Haram para que elas percam a identidade e humanidade e, então, sejam forçadas a aceitar a ideologia dos militantes.

A cristã Fé (nome fictício), de 16 anos, descreveu como combatentes do Boko Haram tentaram forçá-la a se converter à visão deles do Islã.

“Todos os dias, no amanhecer, eles vinham e jogavam água sobre a gente para nos acordar e rezar”.

“Então, num dia, eles trouxeram um homem de uniforme. Eles fizeram com que a gente fizesse uma fila e disse: ‘Como você está sempre chorando, você deve matar este homem.'”

“Eles me deram uma faca e pediram para que eu cortasse o pescoço dele. Disse que eu não poderia fazer isso”, conta. “Eles cortaram o pescoço na minha frente. Eu, então, desmaiei.”

Fé disse ter visto pelo menos uma menina de Chibok que havia se casado com um militante do Boko Haram durante seus quatro meses no cativeiro.

“Ela era como qualquer outra esposa do Boko Haram”, contou. “Temos mais medo das esposas do que dos maridos”.

Longo caminho

O governo nigeriano lançou um programa para ajudar reféns resgatados – centenas de mulheres e crianças foram salvas de redutos do Boko Haram na floresta Sambisa.

Fatima Akilu dirige o programa de combate à violência e extremismo da Nigéria. Atualmente, é responsável por cerca de 300 das mulheres e crianças recentemente resgatadas.

“Não temos visto sinais de radicalização”, disse. “Mas, se isso ocorrer, não ficaremos surpresos”.

Segundo ela, tortura, estupro e casamentos forçados são comuns em campos do Boko Haram.

Enquanto a busca pelas estudantes de Chibok continua – e questões surgem sobre como elas estarão se, em algum dia, voltarem para casa -, aquelas que conseguiram escapar dão início à difícil tarefa de superar a experiência.

“Não consigo tirar as imagens da minha cabeça”, disse Anna, em lágrimas. “Eu só vejo gente sendo morta. Só rezo para que os pesadelos não voltem”.

Para outras, o pesadelo é diário. Miriam pode dar à luz a qualquer momento.

“Espero que seja uma menina”, diz. “Eu a amarei mais do que qualquer menino. Tenho medo de ter um menino.”

O futuro de Miriam é sombrio. Ela teme que seu “marido” a encontre e a mate por ter fugido. Sua comunidade também a rejeita.

“Eles me lembram que eu tenho um Boko Haram dentro de mim.”

 

 

BBC Brasil

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