25 de fevereiro de 2014 - 09:52

Pressão da Rússia mantém risco de instabilidade na Ucrânia

Viktor Yanukovych, ex-presidente da Ucrânia, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin (AP)Putin (dir.) não se pronunciou sobre acordo que deu fim à crise ucraniana e ao governo Yanukovych (esq.)

O anúncio de que a Ucrânia havia chegado a um acordo político, na quinta-feira passada, representou uma grande vitória da diplomacia da União Europeia, que se envolveu em longas horas de discussões com o agora afastado presidente Viktor Yanukovych.

Mas o acordo veio com um preço, a potencial alienação da Rússia. Profundamente auspicioso foi o fato de que, na assinatura do acordo, estavam presentes representantes europeus, da oposição e Yanukovych – mas estava ausente o enviado presidencial russo, Vladimir Lukin, designado por Moscou para ajudar nos esforços de mediação.

Desde a assinatura do acordo, que prevê um governo de união nacional e a adoção da Constituição de 2004 (um pedido da oposição, para eliminar os superpoderes do presidente), as coisas mudaram. Yanukovych fugiu de Kiev e agora há um mandado de prisão contra ele. A oposição assumiu interinamente a presidência e eleições foram convocadas para 25 de maio, sem tempo hábil para uma reforma constitucional.

Até o momento, não houve reação pública do presidente Vladimir Putin a esses últimos desdobramentos. Já o primeiro-ministro russo, Dmitry Medvedev, declarou nesta segunda-feira que pairam dúvidas sobre “a legitimidade de um grande número de órgãos do poder” que agora funcionam em Kiev.

“Alguns de nossos parceiros do Ocidente, estrangeiros, pensam diferente. Trata-se de um tipo de aberração de percepção quando as pessoas chamam de legítimo o que é essencialmente o resultado de um motim armado.”

A oposição agora está com a faca e o queijo na mão, e não há muitos sinais de que pretende ceder parte do que angariou à elite pró-Rússia. A declaração do presidente interino, Olexandr Turchynov, de que “nós estamos prontos para um diálogo com a Rússia” veio acompanhada, com grande ênfase, de outras ressaltando que a Ucrânia escolheu a “opção europeia”.

Porém, a menos que as promessas de integrar a Rússia ao processo político se traduzam em medidas práticas e efetivas, a Ucrânia tende a permanecer em um estado de grande tensão, como já mostraram protestos contra a saída de Yanukovych, alguns com confrontos envolvendo manifestantes pró-Rússia e simpatizantes da oposição.

Posição frágil

Enquanto se preparam para as eleições antecipadas de 25 de maio, os opositores a Yanukovych terão que se ver no espelho e entender que a posição agora alcançada no poder é frágil.

Em primeiro lugar, embora a Ucrânia tenha reencontrado o caminho para integração com a União Europeia, isso não significa que a entrada no bloco europeu vá acontecer tão cedo. Muito pelo contrário.

Como ocorreu com todos os países do leste da Europa que buscaram entrar no bloco, a Ucrânia terá de adotar duras reformas políticas e econômicas para colocar a casa em ordem. Não há dúvida de que é um processo complicadíssimo em um país à beira da moratória e rachado ao meio por um confronto que quase descambou para a guerra civil.

As reformas econômicas vão começar com a pílula amarga das medidas de austeridade que a UE e o FMI certamente vão impor como contrapartida para a ajuda. A Rússia, que havia prometido US$ 15 bilhões, não deve mais ser tão benevolente.

A austeridade com certeza vai causar desconforto e prejudicar os novos governantes egressos da oposição. Não é toa que a ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko abriu mão de voltar imediatamente ao cargo, preferindo se candidatar a presidente em maio. As medidas mais urgentes provavelmente serão muito impopulares, e ela precisará de uma mandato claro e sólido para implementar medidas adicionais.

Por outro lado, as reformas políticas vão exigir a engenharia de um sistema em que a parte pró-Rússia seja ouvida, participe do processo democrático. Como fazer isso? Essa é a questão mais complicada.

As opções da Rússia

A resposta a essa pergunta vai depender, provavelmente, de como a Rússia vai agir daqui para frente.

Como sempre, surpresas são possíveis, mas há dois caminhos básicos que Moscou pode trilhar agora: ou aceita o rumo dos acontecimentos na Ucrânia ou resiste a eles.

A primeira opção significa Moscou reconhecer sua derrota no processo político ucraniano. A partir disso, a diplomacia russa teria que fazer gestões de bastidores para que representantes pró-Rússia tenham uma participação significativa no governo de unidade nacional previsto no acordo da semana passada.

Paralelamente, autoridades russas, especialmente o presidente Putin, teriam que dar seu aval público aos desdobramentos no país, desta forma agindo para apaziguar os ânimos dos descontentes.

Mas isso não é o que parece estar acontecendo no momento.

A segunda opção é Moscou manter sua posição inicial de que o acordo político para resolver a crise foi “sequestrado” pela oposição. A Rússia poderia escalar sua pressão adotando sanções econômicas (elevar o preço do gás exportado à Ucrânia, por exemplo), ampliar a retórica política de condenação aos desdobramentos no país vizinho ou usar seu soft power, ou seja, mobilizar os seus simpatizantes na Ucrânia.

Assim, o Kremlin provavelmente incentivaria manifestantes pró-Rússia a irem às ruas cada vez mais, até que houvesse alguma concessão por parte dos novos detentores do poder.

As declarações desta quinta-feira de Medvedev indicam que este é o caminho que vem sendo seguido pela Rússia.

Há dois riscos nessa estratégia. A primeira é que a Rússia pode estar superestimando o ânimo dos manifestantes pró-russos em protestar ou mesmo sua capacidade de incentivá-los a ir às ruas.

Até agora, as manifestações dos pró-Yanukovych não se compararam às da oposição antes do acordo político da semana passada. Por outro lado, este pode ser só o início de um novo levante.

O outro risco é que, se a estratégia der certo demais, o país fique ainda mais dividido. Poderia haver protestos violentos no leste e no sul, poderia haver um boicote às eleições de maio. A Ucrânia poderia ter um novo cenário de confronto aberto e a possibilidade de divisão em dois países voltaria a pairar sobre os ucranianos.

Cabe a diplomatas estrangeiros, especialmente os europeus, tentar dissuadir a Rússia de continuar nesse caminho. Mas, dado o histórico de dificuldades nos contatos entre os dois lados, há razão para pessimismo quanto à evolução política na Ucrânia.

*Rafael Gomez é mestre em estudos da Rússia e da Europa Oriental pela Universidade de Birmingham, Reino Unido

 

 

BBC Brasil

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