15 de fevereiro de 2014 - 01:48

Novo índice de inflação da Argentina agrada economistas

Ministro da economia Cristina Kirchner and Axel Kicillof (à esq.) e a presidente Cristina Kirchner (foto: AFP)Índice divulgado por governo argentino é aprovado por economistas e opositores

O governo argentino apresentou nesta quinta-feira seu novo Índice de Preços ao Consumidor Nacional Urbano (IPCNU), que apontou uma inflação de 3,7% em janeiro em relação a dezembro do ano passado.

Na prática, o governo admitiu uma inflação praticamente 2.5 vezes maior do que registrou no mês anterior. A ação foi aprovada por economistas e opositores.

Contudo, o novo índice ainda aponta para uma inflação mais baixa do que a divulgada por parlamentares opositores do governo no Congresso Nacional para o mesmo período: 4,6%.

O dado oficial da inflação argentina vinha sendo questionado pela oposição e por economistas desde janeiro de 2007, quando o Instituto Nacional de Estatísticas e Preços (Indec) passou a ser administrado por funcionários ligados ao então secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. Em dezembro, por exemplo, o índice foi de 1,4%.

Por considerarem os antigos índices divulgados pelo governo imprecisos, consultorias privadas começaram a medir a inflação usando metodologias próprias, mas receberam multas do governo pela ação. A divulgação de índices não oficiais passou então a ser feita pela oposição.

Ao anunciar o IPCNU, o ministro da Economia da Argentina, Axel Kicillof, justificou a mudança.

“Entre 2004 e 2013 o poder aquisitivo dos salários na Argentina mudou, o desemprego caiu e ocorreram também mudanças na estrutura do consumo e era preciso modificar o índice de preços do país”, disse.

Segundo ele, em 2004, por exemplo, oito milhões de pessoas tinham cartão de crédito no país e no ano passado eram 13 milhões de pessoas.

Neste período, o país foi governado pelo kirchnerismo, signo político que começou com a posse do ex-presidente Nestor Kirchner em 2003 e é mantido com sua viúva e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.

Kicillof detalhou os itens que mais pesaram neste resultado, como o aumento nos preços dos transportes e nos combustíveis.

Aprovação

O resultado apresentado pelo ministro recebeu aprovação dos economistas, incluindo os que são críticos da política econômica do governo, e também de parlamentares da oposição.

“O índice do governo foi maior ao que esperávamos e agora sim está perto da realidade e o problema deve ser enfrentado como corresponde”, disse o analista econômico da emissora de televisão TN (Todo Noticias), de Buenos Aires.

O economista Orlando Ferreres também elogiou o resultado apresentado pelo ministro da Economia.

“Este primeiro índice foi bem detalhado, está correto e sugere que o governo mudou e reconhece a inflação”, disse a BBC Brasil o economista Orlando Ferreres.

O governo, afirmou, baseou-se em uma metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI) e com o reconhecimento da inflação busca também “o início da retomada da credibilidade” internacional.

“O governo realizou um levantamento nacional e mostrou seriedade no resultado. Mas se o índice fosse assim todos os meses terminaríamos o período de um ano com mais de 50% de inflação. Porém, a tendência é que ela caia a partir de fevereiro”, disse o economista.

Em janeiro, o preço dos transportes teve alta de cerca de 70%. Ele afirmou que este fato não se repetiria em outros meses.

Em um relatório, a consultoria econômica Abeceb, também de Buenos Aires, disse que “em princípio o IPCNU é uma boa notícia”.

“Apesar de que teremos que estar atentos à sua evolução, a cifra publicada pelo Indec, que é muito mais próxima à estimada pelo setor privado, significa um bom começo para o novo índice de Preços Nacional Urbano. O desafio agora é reconstruir a credibilidade do organismo”, afirmou a consultoria.

Em sua conta no Twitter, a deputada federal da oposição Patrícia Bullrich escreveu: “3,7%, aos poucos o governo se aproxima da realidade. Mentiram durante sete anos e dizem a verdade agora porque o FMI os obrigou”.

Em fevereiro do ano passado, num episódio que foi definido na Argentina como “inédito”, o FMI sancionou a Argentina com uma “moção de censura pela má qualidade de suas estatísticas”, segundo informou a imprensa local, na ocasião.

O segundo passo, disseram os jornais argentinos, poderia ser a “expulsão” do país do organismo.

Segundo políticos e economistas, por determinação da presidente Cristina Kirchner o Fundo não era autorizado a rever as contas do país desde 2007, quando começou seu primeiro governo. Ela foi reeleita em 2011 e o atual mandato termina em 2015.

Na ocasião, o FMI informou em um comunicado que havia realizado uma reunião para avaliar os índices de preços e do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

O Conselho do FMI instou a Argentina, publicou o jornal La Nación, de Buenos Aires, a adotar “medidas corretivas para fazer frente à falta de precisão do IPC-GBA (Índice de Preços ao Consumidor-Grande Buenos Aires)”.

A expectativa é que agora o Fundo avalie o resultado apresentado pelo governo argentino, o que poderia, segundo economistas, servir de respaldo ao país para suas negociações com o Clube de Paris – com quem a Argentina tem uma dívida desde 2002 – e para possíveis novos créditos com o próprio Fundo.

Telefonema

A inflação foi um dos temas principais nos dois últimos discursos da presidente em rede nacional de rádio e de televisão.

Ela disse que os que aumentam preços estavam “saqueando” o bolso dos argentinos. Nesta quinta, consumidores revelaram à emissoras de rádio e de televisão locais que a presidente ligou para eles após saber das queixas relacionadas aos preços.

“Fui a um supermercado e me limitaram a quantidade de açúcar. Mandei uma mensagem para a presidente através da página dela no Facebook e me ligaram da Presidência e falei com ela durante dez minutos. Ela me pediu detalhes e disse que fiz muito bem em reclamar”, contou Fernando Garaventa, à emissora de televisão C5N.

 

 

BBC Brasil

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