10 de dezembro de 2013 - 05:17

Líderes mundiais e sul-africanos se despedem de Mandela

“Viva Tata Madiba, viva!”, gritavam os sul-africanos que caminhavam, corriam e cantavam apesar da forte chuva que caiu sobre a cidade de Johannesburgo, em direção ao estádio de Soweto (também conhecido como Soccer City), determinados a homenagear o Tata (Pai) Nelson Mandela.

“Se ele foi capaz de ficar atrás das grades por 27 anos por nós, o que é um dia de chuva forte?”, refletiu Musa Mbele.

O HERÓI AFRICANO

Milhares de pessoas usaram o serviço de trem grátis que foi oferecido para chegarem do centro de Johannesburgo até o estádio, misturando-se com animação nas plataformas de embarque e nos compartimentos do trem –homens e mulheres de todas as idades e raças.

“Estou indo para o memorial para me sentir mais perto do espírito nacional, para sair da minha bolha”, disse o africâner branco Marcel Boezaart, de 26 anos.

Uma nação jovem e ainda marcada por vários problemas se despede com alegria do seu precioso herói, ex-presidente e fundador de uma sociedade livre do apartheid.

“Eu nasci livre”, disse a estudante de engenharia de 19 anos Luyanda, com um grande sorriso. “Nos primeiros dias após a morte de Mandela, eu chorei, mas hoje é um dia de celebração”, completou.

Os sul-africanos começaram a se reunir antes do amanhecer para garantir um lugar no estádio e se juntar aos cerca de 100 chefes de Estado e de governo que vieram prestar homenagens à vida e ao legado de Mandela.

No começo do dia, a cerca de 70 quilômetros dali, na base aérea de Waterkloof, aviões traziam os líderes mundiais da China, Alemanha, Brasil e de todas as partes do mundo.

Enquanto as arquibancadas do estádio se enchiam, a estrutura física parecia se mover como uma onda. A multidão batia os pés e dançava em unidade, numa “ola” gigante.

“Isto só acontece uma vez na vida. Isto é história e eu não queria assistir pela TV “, disse Noma Kova, de 36 anos.

As pessoas cantavam canções folclóricas, religiosas e, principalmente, as músicas que marcaram a luta que Mandela liderou.

Muitas das dezenas de milhares de pessoas que estavam no Soccer City viveram os horrores de Soweto, Sharpesville e Boipatong, ou passaram por humilhações cruéis, como a obrigação de usarem banheiros separados e a necessidade de pedirem autorização para ir de um bairro para outro, o “passe”.

“Eu morava na rua principal de Soweto e lembro-me que, em 1976, vi estudantes caindo como moscas nas ruas, enquanto corríamos e tentávamos nos esquivar dos disparos”, disse o empresário Jabu Maseko, de 54 anos.

“O momento mais humilhante foi quando fui solicitar um ‘passe’ e me mandaram tirar a roupa em uma sala cheia de pessoas, para o chamado exame médico.”

Muitos no estádio estavam envoltos na bandeira sul-africana ou em xales verde-amarelos (cores que representam o país), onde estava impresso o slogan “Mandela para sempre” e o retrato do herói da luta contra o apartheid.

“Hoje o ciclo se completa. Precisamos deixá-lo ir em paz. Hoje é um dia de celebração, e em nossa cultura há sempre alguém cantando, seja quando uma criança nasce ou quando alguém morre. Choramos, mas também cantamos”, disse Dudu Manala, de 49 anos, membro do coro Imilonjikantu de Soweto, que cantou na posse de Mandela como presidente, em 1994.

“É como uma terapia. Mas haverá mais choro quando milhões de pessoas virem o caixão, quando sentirão de fato a perda, a separação”, completa Manala.

O nigeriano Fola Folowosele, de 27 anos, estava visitando amigos na África do Sul quando a morte de Mandela foi noticiada, na última quinta-feira. Ele não hesitou ao decidir que ficaria no país para participar do funeral de Estado de uma semana. “Talvez ele seja o maior filho da África, e esta é uma experiência única na vida”, defende.

Alguns na multidão relembraram momentos preciosos de quando viram, conheceram ou chegaram a conversar com o homem que eles homenageiam agora.

“Quando você fala sobre Mandela, você está falando sobre a África do Sul”, disse Julenda Ntlekoana, uma enfermeira que conheceu Mandela quando ele visitou o hospital de Johannesburgo, em que ela trabalha.

 

 

 

UOL

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