2 de novembro de 2013 - 03:08

Padre Vieira no bar

Já tinha visto de tudo em mesa de bar, menos o Padre António Vieira. Mas agora ele veio – tímido, sorrateiro, passando de mesa em mesa, oferecendo-se a uma galera de jovens que tomavam cerveja ao som de Aviões, Calcinha Preta e Garota Safada.

Já vi autores, geralmente poetas da própria terra, andando de mesa em mesa com seus livrinhos recém-lançados, oferecendo o seu trabalho a preços irrisórios, tentando vender poesia na hora e lugar errados, dizendo assim mais ou menos:

– Por favor, adquiria o meu livro para ajudar a um artista da terra…

Os que estão na mesa, indiferentes, às vezes nem olham. Alguns chegam a pegar no livro, folheiam suas páginas e depois o devolvem, negando com a cabeça. Esses poetas-vendedores não perceberam, ainda, que oferecer os seus livros em mesa de bar não é uma boa estratégia. Talvez funcione raramente, com alguém que resolve ajudar. Mas o  esforço não compensará, e não há preço que pague a humilhação de um poeta.

Já vi de tudo isso, menos com o Padre António Vieira… Um homem que aparentava uns 40 anos, não sei se em bom estado de sanidade mental, apareceu no salão com uma pilha dos sermões do Padre Vieira. Eram livros em capa dura – antigos, amarelados –, uma coleção inteira! E ele dizia:

– Estou oferecendo essa raridade: os Sermões do Padre Vieira a 5 Reais cada livro.

E todas as cabeças se mexendo, desenhando um Não peremptório. O homem parecia entender que ninguém sabia quem era o Padre Vieira, ou a importância dos seus sermões para a língua portuguesa, de modo que insistia em oferecer o produto com uma breve explanação sobre o autor:

– Se você lê esses sermões, sua vida vai mudar. Você vai adquirir muito conhecimento sobre a Bíblia e a nossa História. Vai estar preparado para tudo.

E não, não – todos dizendo não… fazendo gestos para que ele saísse. O vendedor, fracassado, agradecia em cada mesa e abordava a próxima, repetindo o discurso.

Chegou a minha vez – minha vez! Justo eu que escrevera uma peça chamada “Os Sete Mares de António”, que trata da vida e obra do Padre António Vieira! Justo eu que lera vários sermões e os transformara em versos no texto dessa peça. Ele põe a coleção sobre a minha mesa e começa falando:

– Estou aqui oferecendo os sermões de um autor muito importante que…

– Amigo, quer um conselho? – interrompi.

Ele se surpreende e passa a me ouvir:

– Não tente vender esses livros aqui, você não vai conseguir.

Parece que ele não entendeu e insiste:

– Mas custa apenas 5 Reais.

– Amigo, por favor, vá embora com esses livros… Não perca seu tempo aqui.

Depois de alguma conversa, ele se afastou. Passou algum tempo afastado, me olhando disfarçadamente. Instantes depois, entra um casal e se senta. Ele tenta a sua última cartada e, mal começa a falar, o homem já o dispensa com um toque no peito:

– Não quero saber disso, me deixe em paz.

O vendedor se afasta, humilhado. Aguarda um tempinho para se safar e então me olha pela última vez. Pisca o olho e, de mansinho, vai embora sem dar na vista, levando Vieira de volta pra casa.

 

tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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