15 de setembro de 2013 - 09:58

O sobrinho do Doutor

Nunca teve moleza na vida, sequer na infância. Menos ainda na adolescência, tempo que dividiu entre a escola pela manhã, a mercearia do pai à tarde e o estudo à noite. Criado sob privações de asceta e educado na mais rígida disciplina, Basto levou para a vida adulta o jeito severo de ser, sem desvios de conduta ou fraquejos de caráter. Nem mesmo na juventude que passou na Capital permitiu-se às pândegas e farras próprias da idade.

Ele veio de Misericórdia, onde nasceu, para João Pessoa, onde vive até hoje. Porque botou na cabeça de ser médico e somente aqui acumularia conhecimento suficiente para entrar no curso mais concorrido da Federal. Os pais apoiaram de logo a pretensão e a mudança, orgulhosos da decisão do filho de se formar em Medicina. Nem assim aliviaram nas obrigações. Basto estudaria na Capital, tudo bem, mas teria que prover o próprio sustento. Trabalhando, lógico.

Acostumado à dureza, o menino tirou de letra. Melhor: primeiro, passou com excelentes notas no exame de admissão do Liceu, onde faria o segundo grau; ao mesmo tempo, batalhou e conseguiu vaga na Casa do Estudante, para ter onde dormir sem mais dever favor a um tio que o acolheria em casa no primeiro semestre letivo. Fechando o roteiro traçado desde a partida, o jovem Basto procurou a achou trabalho para se manter.

Arrumou emprego de revisor num jornal onde a redação encerrava tarde da noite, obrigando a revisão de textos a entrar pela madrugada. Nessa pisada, não conta vezes em que saiu da lida direto para o colégio. Dificuldade desse porte era café pequeno para o rapaz, todavia. Prova disso, três anos após a estreia em João Pessoa, lá estava o seu nome entre os dez primeiros no mais disputado vestibular da Paraíba.

Pelo riscado até esse ponto, o leitor já deve ter presumido que o nosso herói concluiu Medicina com distinção e louvor. Foi, foi sim. Depois, fez residência em São Paulo, retornou à Paraíba e foi ser médico da Fundação Sesp. Trabalhou por três anos de clínico geral na maternidade que a instituição mantinha numa cidade-polo do Curimataú. De lá, rodou por mais três ou quatro em outros municípios do interior para, finalmente, definitivamente, reinstalar-se em João Pessoa.

Voltou porque passou em concurso para professor do curso que fez todo mundo chamá-lo de Doutor Sebastião. Bem sucedido e já ganhando um bom dinheirinho, casou, constituiu família e legou à sua descendência os mesmos valores e rigores que lhe formaram a personalidade com a têmpera dos melhores sertanejos. Por essas e outras, por todos os títulos e méritos, Basto transformou-se naturalmente em exemplo para todos os seus conterrâneos e motivo de particular orgulho para os mais chegados, aí incluídos os parentes mais próximos, além dos colaterais e ‘transversais’.

Para os seus familiares, em especial os mais distantes e de menos posses, o Doutor virou também referência de acolhida segura para alguns primos e sobrinhos que precisavam migrar para João Pessoa na expectativa de trilhar o mesmo caminho e alcançar o mesmo sucesso do anfitrião. No limite de suas possibilidades, inclusive financeiras, o homem deu guarida e ajudou muita gente que lhe procurou com aqueles propósitos. Mas não se envolvia diretamente na condução dos eventuais agregados.

Orientava ou fazia gestões para arranjar-lhes vagas em Casa do Estudante ou Residência Universitária; vez por outra, descolava empreguinho de jornada reduzida que não atrapalhasse a formação dos protegidos. Daí não passava. A exceção seria o filho único de sua única irmã. Com Perseu, eis o nome da fera, seria bem diferente, o que ficou patente desde quando Sebastiana pediu ao irmão para hospedar o sobrinho que pretendia concluir o científico em João Pessoa, cidade na qual o garoto jamais estivera. No dia da viagem, a mãe de Perseu ligou perguntando se Basto poderia pegar o jovem na Rodoviária.

– Posso, mas não vou – respondeu secamente o Doutor.
– Como assim, meu irmão? Que tem de mais…
– Tem Bastiana, que não vou privar o menino de aprender o caminho…

Evidente que Perseu tinha o endereço do tio e resolveu se virar quando percebeu, após meia hora de espera no Terminal do Mangue, que não teria a carona dada como certa por sua mãe. E no mesmo dia, para sua decepção, soube que não ficaria morando na casa de Doutor Sebastião. Sua morada seria um pequeno apartamento no Castelo Branco que Basto comprara e mobiliara espartanamente, há pouco, já pensando nas serventias pelas quais era demandado.

Mas, atenção. O fato de Perseu não ficar sob o mesmo teto não significava, como não significou, que Basto largaria o sobrinho no Castelo, esquecendo-lhe a existência e os cuidados de um tio que desde a chegada do rapaz sentira um quê de indolência e malandragem no filho de Sebastiana. Intimamente, admitia e torcia por um equívoco de sua parte, mas… Daí por que deu para fazer coisas como a incerta que certo dia fez no apartamento, onde encontrou Perseu deitado numa rede, não dormindo, mas estudando.

Foi aí que o Doutor deu fé: não equipara direito o apartamentinho. Constada a falha, não contou conversa… Voou para a Rua da República e de lá voltou com uma escrivaninha usada, mas em bom estado. Ele mesmo instalou o móvel na sala, adicionou-lhe a única cadeira disponível e foi até o quarto onde Perseu continuava estudando do mesmo jeito, ou seja, na rede. “Faz favor de vir até a sala, meu filho”, chamou, sendo prontamente obedecido. “Olhe, comprei essa escrivaninha aqui pra você, porque rede é lugar de dormir, não de estudar. Faça bom proveito dela, viu?”, disse, indo embora em seguida.
***
– E que fim levou o seu sobrinho, Doutor Sebastião? Por onde anda Perseu? Conseguiu se formar? – perguntei-lhe semana passada, acho que na quarta-feira, depois de ouvir bom pedaço dessa história no cafezinho que frequentamos quase diariamente.
– Quem? Perseu? Ah, Perseu formou-se aqui na UFPB, fez pós-graduação em Campinas e foi pro exterior. Hoje ensina Medicina, numa universidade da Califórnia.

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Carlos Miguel

Política

Natural de Itaporanga, Sertão da Paraíba, 34 anos, profissional de saúde, licenciado em LETRAS, estudante do curso de Relações Internacionais da UEPB, Campus V. Experiência em programas radiofônicos nas emissoras: Rádio Boa Nova FM, Rádio Vale FM. Correio do Vale AM. Escreveu nos jornais de circulação do Vale do Piancó: Folha do Vale e “O Semanário”. Comentarista político do programa Jornal da Cidade da Boa Nova FM.

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