21 de julho de 2013 - 02:17

Jovens filiam-se ao Partido Comunista chinês por status

Prestes a ingressar na universidade, Yang Jiamn, 17, é fã da rede americana de cafeterias Starbucks, dos craques do Real Madrid e do Partido Comunista chinês.

O sorridente e corpulento adolescente se prepara há dois anos para se tornar oficialmente membro do PC.

Nesse período, frequentou grupos de estudo do partido em sua escola, onde escreveu redações sobre a história do socialismo e foi mantido sob “observação”.

Depois de passar por três peneiras, em que o grupo inicial de candidatos encolheu de 30 para três, está a caminho de realizar seu objetivo. Só espera alcançar a idade mínima de 18 anos.

Editoria de Arte/Folhapress

Yang não vê contradição entre a ambição comunista e os gostos capitalistas. E sonha com o dia em que o país será “totalmente comunista, sem propriedade privada e com todos trabalhando pelo bem comum”.

Em meio às celebrações do 92º aniversário de fundação do PC chinês, jovens como Yang disputam uma vaga no que consideram a elite política do país, alguns por idealismo, a maioria com puro pragmatismo.

Ser membro do PC garante vantagens muito distantes do ideal proletário. Num país de partido único e com milhares de empresas estatais, a carteirinha do partido pode ser a diferença entre um trabalho estável e as incertezas do setor privado.

Recém-formado em ciência da computação na Universidade de Pequim, Ren Hongru, 23, dividiu-se entre as aulas de informática e lições de marxismo até tornar-se membro do PC, há um ano.

Editoria de Arte/Folhapress

Para isso, além de boas notas e de comprovado envolvimento no grêmio estudantil, precisou ser aprovado em votação do núcleo do partido na universidade.

Ren não nega que a estabilidade de um emprego estatal foi um dos motivos que o levaram a se juntar aos outros camaradas. “Na estatais há mais benefícios e não se trabalha tanto como nas empresas privadas”, diz.

A seu lado, o colega Chu Hai, 22, resume a importância da credencial comunista. A dificuldade em entrar no partido aumenta o status de quem consegue. “Na China, ser membro do partido é um rótulo de excelência”, diz.

No ultracompetitivo mercado de trabalho chinês, poucos desprezam a chance de fazer carreira no setor estatal. Até o fim de 2011, segundo a agência oficial Xinhua, o país tinha 144,7 mil empresas estatais, responsáveis por um terço da economia.

Em discurso por ocasião do aniversário do PC, há poucos dias, o presidente chinês, Xi Jinping, criticou a obsessão pelo desempenho econômico como forma de ascender no partido e reiterou os ideais comunistas.

“Os membros do partido devem ser firmes seguidores do ideal comunista, crentes verdadeiros do marxismo e combatentes dedicados ao socialismo com características chinesas”, pregou Xi.

85 MILHÕES

Entre os jovens que dão os primeiros passos no partido, porém, não parece claro onde a ideologia comunista se encaixa na China de hoje.

“A China é totalmente capitalista”, diz sem pensar muito Yin Zihan, 21, que acaba de se formar em ciência do meio ambiente. Membro do partido, ela pensa em buscar trabalho numa estatal.

O PC da China completa 92 anos com 85 milhões de membros, o que faz dele o maior partido do mundo. Para muitos, é cada vez mais um clube exclusivo, que se afastou de suas origens camponesas e proletárias para privilegiar o topo da pirâmide social.

Trinta e cinco anos após a entrada do país na economia de mercado, não resta nada de comunista além do nome, diz Zhang Lifan, especialista em história moderna da China. “O que foi desapropriado em nome do bem público virou propriedade privada do partido. Isso é capitalismo típico. […] A China não é a ditadura do proletariado. É a ditadura da propriedade.”

 

 

Folha de S. Paulo

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