3 de maio de 2013 - 04:45

Minha Vírgula, meu Ponto Final

De todas as peças que escrevi para teatro, apenas uma é destinada ao público infantil. Chama-se “A Batalha da Vírgula Contra o Ponto Final”, cujos personagens são os sinais ortográficos que disputam sua vaga numa redação escolar.

Escrita em 1989, nunca mais produzi outra coisa para o público mirim. Mas o sucesso foi tão relevante que até hoje recebo cobranças para prosseguir no gênero. Curiosamente, foi a peça que recebeu o maior número de encenações e, também, de montagens clandestinas por cidades afora, sem que o autor tenha autorizado.

Um caso muito recente me pôs em guerra fria com determinado profissional de teatro do Rio de Janeiro. Por muito pouco não fui às vias judiciais, mas acabei desistindo para não ter aborrecimentos, e também por entender que não ficaria rico.

Em 2008, fui seduzido pelo canto da sereia desse produtor teatral que costuma negociar espetáculos com escolas do Rio. Quando ele leu o meu texto, pediu autorização e me enviou um contrato em duas vias. Assinei o documento que estabelecia um percentual de 5 % de toda a renda para o autor. Na verdade, fiz esse desconto para ele depois de muita pechincha, pois o direito de 10 % é garantido por lei.

Naquele ano, ele realizou a temporada de um mês no Teatro Ipanema. Ao fim da temporada, depositou em minha conta algo em torno de 300 Reais e alguns centavos. E parou aí. Não fez mais temporadas com bilheteria, pelo menos que seja do meu conhecimento. Só mais tarde, em uma pesquisa pela internet, descobri que a peça estava circulando por escolas do Rio. Através de e-mail, entrei em contato com ele e lembrei:

“Acho que assinamos um contrato, não é mesmo?…”

O mundo foi abaixo. O cara ficou zangado com a cobrança e me fez perceber que eu tinha assinado um contrato para receber apenas das bilheterias. Quer dizer: a sua finalidade era vender para escolas, com apresentações em âmbito do ensino médio e fundamental, já que a peça tem uma temática propícia para esse tipo de público.

Cruzei os braços, não quis desavenças e esperei que chegasse o dia 31 de dezembro de 2011, data em que o nosso contrato se encerraria. E logo no alvorecer de 2012, enviei-lhe um e-mail lembrando que o nosso prazo tinha expirado, dando-lhe a entender que ele não deveria continuar. Ele respondeu de forma muito gentil e até agradeceu pelo tempo que ficou com a peça.

Agora, no início de 2013, essa criatura ressuscita em minha caixa postal com a seguinte proposta: “Tô pensando em remontar A Batalha da Vírgula Contra o Ponto Final – para algumas apresentações. Qual o valor para ter os direitos por este ano?”

Apesar de considerar um cinismo, fui um tanto profissional com a seguinte resposta, a fim de não repetir o erro anterior:

“Não sei te dar o valor sem ter uma ideia de quantas apresentações ou onde serão as apresentações – escolas, teatro, etc. Faça sua proposta, sem problema.”

Ele me responde zangado e, pior que isso, muito grosseiro:

“O produto é teu, o preço quem faz é vc. Não importa onde apresentarei. Vc diz seu preço, se eu achar que vale pagar fechamos, senão eu parto pra outro texto.”

Depois de uma grosseria dessas, minha resposta não poderia ser diferente:

“Negócio fechado. Parta para outro texto.”

E Ponto Final. Terminou a Batalha e ele não mais escreveu sequer uma Vírgula.

tarcisio.pereira

Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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