1 de março de 2013 - 01:36

Como manda o figurino

Dizem que, nesta vida, o mundo trata melhor quem se veste bem… Quem nunca ouviu esta máxima? Ou, então, aquele outro axioma segundo o qual aparência é tudo?

Não creio que seja realmente tudo, mas vemos que é parte fundamental. Pelo menos em relação a alguém que a gente não conhece, não sabe das suas condições ou posição na sociedade. No quesito aparência, em regra, as mulheres sempre se deram bem – embora muitas façam seus esforços sem necessidade, e vivam a ilusão de estarem mais bonitas por seu excesso de joias, pinturas ou roupas extravagantes.

Existem belas mulheres que, sem saber, jogam fora toda a sua beleza com um acúmulo de aplicações que só servem para envelhecê-las mais rápido. E torná-las feias, terrivelmente feias. São mulheres assassinas de si mesmas, embora não saibam disso. Pensam que estão melhores, quando a maquiagem as piorou.

Sábias as belas naturais que permanecem naturais, sem a busca de artifícios. Sábias também, claro, as que se aplicam para ficarem melhores do que já são, e estas também existem. Ou então para adquirirem a estampa que a natureza não deu… Estas, aliás, existem também em grande quantidade.

Quanto aos homens, agora é a vez deles. Perderam até o tabu de assumirem a sua vaidade. Tratam do cabelo a cada quinze dias, procuram clínicas de estética e fazem limpeza de pele, arrancam pelos do nariz e da orelha, dão design às barbas e bigodes, quando optam por isso. Sem falar do critério na escolha de roupas e, claro, na presença assídua às academias de ginástica.

O que leva as pessoas a procurarem uma imagem diferenciada? É para se sentirem bem, com a autoestima elevada, ou simplesmente para que o mundo lhes trate melhor? Pessoalmente, já passei maus bocados em determinados instantes de vestimenta modesta. Em outros, senti diferenças de recepção quando estou de acordo com o figurino padrão. De toda forma, tive sempre cuidado para que os tecidos não se tornem armadura; para que os sapatos não ferrem os dedos e que tal beleza seja um desconforto, como estamos acostumados a ver em algumas pessoas.

Ontem tive pena da moça que secretamente chorava, fazia caretas, apertava os olhos e tentava disfarçar o incômodo dos seus sapatos de salto. Dizia: “está doendo muito”, mas não tirava os sapatos por nada deste mundo, porque aqueles sapatos eram “lindos demais”, pensava ela. Chamavam “a atenção”, acreditava. Doíam, arrochavam os seus ossinhos dos pés, mas ela haveria de tolerá-los até que a festa findasse. Arre lá, eu disse. Prefiro a feiura livre do que uma beleza escravizada na dor. Ainda que o mundo me trate mal quando a minha aparência não é das melhores, mas que haja alívio para a minha alma.

Que o mundo trate melhor quem se veste bem, mas precisamos cuidar para que os excessos não nos contaminem; que a vaidade não seja um tiro no pé e nem venha ofuscar as outras qualidades quando a aparência for cansativa. Envelhecemos todos os dias, e as outras virtudes serão sempre cobradas pela mesma sociedade que nos comprou.

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Tarcísio Pereira

Cultura

Escritor, teatrólogo e jornalista paraibano. Também agente cultural e produtor artístico, vem desenvolvendo na Paraíba uma intensa atividade nas áreas de teatro, literatura e gestão cultural. Já colaborou em todos os jornais da Paraíba, sempre com temas na área de cultura, política ou cotidiano. Como escritor, publicou 21 livros, sendo 7 romances e 14 volumes com produções de textos dramatúrgicos. Recebeu vários prêmios nacionais como escritor e teatrólogo, além de indicações em concursos fora do país. Nascido em Pombal, no sertão paraibano, reside em João Pessoa desde 1980, cidade que lhe conferiu o título de Cidadão Pessoense e a Medalha Educador Darcy Ribeiro, em reconhecimento da Câmara Municipal de João Pessoa. Também é diretor teatral e ator, com atuação em teatro e filmes brasileiros.

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